Perfil do Acadêmico

Cadeira 39

Ceres Costa Fernandes

Naturalidade:

Salvador - BA

Data de Nascimento:

28 de dezembro de 1942

  • Antecedido por:

    Recepcionado por:

    Joaquim Itapary

  • Data de Eleição

    21 de dezembro de 2001

    Data de Posse

    24 de maio de 2002

Biografia

Nasceu em Salvador-BA, em 28 de dezembro de 1942. Filha de Francisco Costa Fernandes Sobrinho e de Maria Isabel Soares Costa Fernandes. Permaneceu naquela cidade até os dois anos de idade, quando retornou ao Maranhão. Estudou o primário em São Luís, no Colégio Santa Tereza, das Irmãs Dorotéas, e parte do secundário no Rio de Janeiro, no Colégio Sacré-Coeur de Jésus, onde era interna. Interrompeu os estudos, aos 15 anos, para casar-se. Completou-os, bem mais tarde, nos cursos de Madureza dos 1◦ e 2◦ graus, realizando as provas no Liceu maranhense. É Licenciada em Letras – Inglês e Português – Universidade Federal do Maranhão – UFMA (1974) e Mestra em Letras – pela Pontifícia Universidade Católica – PUC –RJ (1987). Possui os seguintes cursos de especialização: Especialização em Metodologia do Ensino Superior, Semiologia Aplicada à Literatura e Ensino à Distância.

Foi professora da TV Educativa do Maranhão (1973-82) e é professora aposentada do Curso de Letras da UFMA (1975-96), onde ministrou Inglês, História da Literatura, Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa. Nessa mesma Universidade, exerceu a chefia da Divisão de Estágio Curricular (1978), o cargo de Pró-Reitora de Graduação (1993-96) e o de Assessora de Relações Internacionais (1997-98). Após a aposentadoria federal, desempenhou, no Governo do Estado, o cargo de Assessora Especial de Educação da Gerência Regional de São Luís (1998-2003) – equivalente à época a uma Secretaria, com as 192 escolas estaduais existentes nos quatro municípios da Ilha de São Luís, sob sua responsabilidade.

       De abril de 2003 a dezembro de 2008, exerceu a função de Gestora de Programas Especiais do Governo do Estado, desenvolvendo o Projeto Saúde na Escola, um programa educativo de melhoria de qualidade de vida dos alunos do ensino fundamental das escolas estaduais em 25 municípios-sede das Regionais. A partir de 2005, o programa foi estendido a mais 86 municípios de mais baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Maranhão. Diretora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho desde 2009, ali realiza o Café Literário, evento que já se tornou parte da agenda cultural de São Luís.

Bibliografia

O narrador plural na obra de José Saramago. São Luís: Edufma, 1990, 2ª ed. São Luís: Lithograf, 2003; Apontamentos de literatura medieval – literatura e religião. São Luís: Edições AML, 2000; O último pecado capital & outras histórias. São Luís: Edições AML, 2000; O último pecado capital & outras histórias – seleta. São Luís: Edigraf, 2001; Seleta maranhense de contos e crônicas/ Ceres Costa Fernandes e José Chagas. org., e notas de Jomar Moraes.  São Luís: Edições AML, 2002; Surrealismo & loucura e outros ensaios. São Luís: Editora da Uema, 2008.

Participação em Contos e crônicas – livro de leitura recomendada para o vestibular de junho de 2002 da FAMA – Faculdade Atenas Maranhense – organização, introdução e notas de Jomar Moraes. São Luís: Edições AML, 2002.

MEDALHAS E HONRARIAS:

Medalha do Mérito Timbira (2013),categoria cavaleiro, Governo do Estado do Maranhão; Medalha João Lisboa, 200 Anos.Academia Maranhense de Letras, 2012; Medalha dos 400 anos de São Luís. Assembleia Legislativa do Maranhão, 2012; Medalha São Luís 400 Anos – Vale, 2012; Palmas Universitárias, UFMA, 2009; Medalha Laura Rosa (concedida às mulheres educadoras que se destacaram em outros ramos do saber), 2008; Medalha Odorico Mendes da Academia Maranhense de Letras; Medalha do Mérito Timbira (2006), Governo do Estado do Maranhão; Comendadora do IV Centenário de São Luís, 2012, Governo do Maranhão.

Discurso de Posse

Senhor Presidente da Academia Maranhense de Letras,
Autoridades presentes, Senhores Acadêmicos,
Minhas Senhoras e meus Senhores:

Tivesse eu, neste momento, o dom da ubiquidade, tal qual dizem teria tido Antônio Vieira, e pudesse desdobrar-­me fisicamente em meu duplo, ocupando simultaneamente esta tribuna e uma cadeira dessa querida plateia, certamente este duplo – que alguns chamariam de projeção do eu, outros de superego, e que eu prefiro imaginar como a presença de uma consciência crítica –, este duplo estaria questionando­-se, ao ver­-me pronunciar nesta noite a fala da minha investidura na Cadeira de número 39, da Casa de Antônio Lobo. E o questionamento do meu eu bipartido poderia ser mais ou menos assim: por que estaria a Ceres aí nessa tribuna?

Poder estar ou não estar nesta tribuna. Este questionamento, senhores, me fiz eu repetidamente, antes de aceitar a candidatura que ora completa seu ciclo com o rito acadêmico da cerimônia da posse.

E comigo me desavim… E, ao contrário de Inês, me achei posta em grande desassossego, sendo de mim mesma o contraponto. Contraponto que sempre acompanha meus pensamentos e, por vezes, me atormenta. A questão era: por que eu? Por que eu, se muitos e muitas com os mesmos predicados, e outros possuidores de maior valor, estão fora desta Casa? Busquei e creio ter entendido a razão para cá estar nesta hora. Não somente uma, mas duas.

Tendo uma repórter me perguntado por que desejava candidatar­-me a uma vaga na Academia, respondi­-lhe, fazendo blague, que a inscrição lá estava, aberta, sem candidatos, como a esperar­-me. Mas, certamente, era apenas uma blague.

E esta é a hora propícia para dizer­-vos que um número significativo de amigos, acadêmicos e não acadêmicos, decerto vislumbrando em mim algum mérito, vinha incentivando a minha candidatura há algum tempo. Essa é a primeira razão. A segunda, certamente a mais forte, foi o desejo de aumentar a representatividade feminina na Casa de Antônio Lobo, prestigiando o gênero que há vinte e dois anos, desde 1979, com o ingresso da grande escritora Lucy Teixeira, não mais teve guarida no seio desta insigne confraria. E note-­se, antes de Lucy, Dagmar Destêrro, poeta das maiores desta Casa, nela ingressou em 1974, após um hiato de quase vinte anos, desde a posse, em 1955, da terceira mulher acadêmica, a romancista Conceição Neves Aboud. Antes dela, somente tivemos Laura Rosa, em 1943 e Mariana Luz, em 1949. Cinco mulheres em noventa e dois anos!

A Cadeira de número 39, que de ora em diante deverá caber­-me nesta Casa, perfila­-se entre as mais jovens desta Academia: conta pouco mais de dez lustros desde a sua fundação, em 1948. Patroneada por Augusto Olímpio Gomes de Castro, ela tem acolhido luminares da política, oratória, poesia, administração, jurisprudência, magistério e jornalismo. Todos estes ramos da arte literária e do saber humano foram explorados nesta cátedra pela sequência de ilustres que nela se assentaram. E esses gêneros, interligados por um fio condutor, que o acaso ou o destino aí inseriu, como que se enovelam e, por vezes, unindo ou cruzando seus caminhos, fazem da chegada o ponto de partida ou vice­-versa.

Na tentativa de desenovelar esse novelo, procuro-­lhe a ponta inicial. E ela me parece ser a oratória tribunícia, a marcar fortemente esta cátedra, a nos encaminhar para a visão da sua gênese. Esse gênero, a oratória, vai representar a glória maior de que se nutre o seu patrono, Augusto Olímpio Gomes de Castro, tão justamente escolhido por outro grande orador, o fundador da Cadeira 39, Pedro Braga Filho.

No reconhecimento desse fio condutor, que privilegia os oradores de qualidade, e na obrigatoriedade de apresentar­-me na Casa de Antônio Lobo com um discurso formal para cumprir a tradição e fazer a justa homenagem aos grandes que me antecederam, sinto-­me presa de cuidados frente a tão pesada responsabilidade. Responsabilidade a que a informalidade do meu modo de ser – que pretendo ter estendido a meu fazer literário – pode não corresponder à expectativa dos que me ouvem. Peço­-vos, portanto, benevolência e prometo que tudo farei para manter­-vos despertos até o final…

E o temor do desagrado não decorre apenas da pouca eloquência de quem vos fala. Mas também de uma constatação que há de ser feita: a era de maior apreço aos grandes mestres da retórica e a seus longos discursos é passada. É fato irretorquível que as peças de oratória, sejam elas religiosas, políticas ou sociais, encontram cada vez menos adeptos, tanto para construí-­las quanto para lhes emprestarem atenção no ato da sua fruição.

Já não acorrem às igrejas fiéis e infiéis, engalanados com suas roupas domingueiras, aos magotes, unicamente para ouvir a palavra vibrante de um afamado orador sacro, como acontecia aos moradores de São Luís no século 17, embasbacados, e por vezes vergastados, pela oratória hermenêutico­-teológica embrechada de conceitos engenhosos do padre Antônio Vieira.

Persistindo na linha das peças de exegese cristã e abreviando o que poderia ser uma fastidiosa lista de oradores, é mister fazer uma espécie de zoom no tempo, trazendo­-as para mais perto, até meados do século passado, de onde poderemos referir os apreciados ornamentos dialéticos da oratória do padre Ribamar Carvalho ou do cônego Bonfim, a atrair numerosas pessoas a quaisquer eventos onde pronunciassem suas orações. Fiquemos apenas com esses oradores, que já bastam, pois são forte exemplo de eloquentes tribunos religiosos dos muitos que dignificaram os púlpitos de nossa São Luís.

Menina­-moça, mais menina do que moça, ainda testemunhei algum apreço social à oratória nas numerosas vezes em que participei de mesas de almoços e jantares formais e informais, na companhia privilegiada de meu avô e de meu pai, ambos eméritos discursistas. E, em meio à degustação dos acepipes, havia sempre um momento, por todos esperado, em que alguém se levantava e, respaldado pela respeitosa atenção geral, encetava uma oração que geralmente se iniciava assim: Neste momento solene, em que se me embarga a voz…

Os comensais, já confortados pelas iguarias, punham-­se a gosto para ouvir melhor os longos e frequentemente parnasianos discursos – sempre melhores se recheados de figuras mitológicas, preciosismos e requintadas frases latinas. E o largo emprego dos topoi, já desgastados desde o fim da Antiguidade Clássica, curiosamente, a ninguém parecia incomodar.

Embalada pela sonoridade das frases e pelo encanto enigmático de algumas palavras, eu me distraía a observar os rostos dos convivas e – juro – não lhes percebia enfado algum. Parecia­-me, mesmo, notar­-lhes no semblante um gozo satisfeito, misturado a uma quase beatífica digestão. Ora, e não se vai tanto tempo assim…

É evidente, senhores, que o cumprimento frequente de semelhante ritual às refeições vem se tornando raro nos dias de hoje. O ritmo, cada vez mais rápido, da vida atual vem transformando gostos e imprimindo nova feição à convivência social. Comemos em self‑services, com os minutos contados, discutindo decisões de trabalho, sem tempo para proferir e ouvir discursos.

A pressa e o imediatismo nos impelem a ler somente livros que não vão além das cem páginas. Os jovens chegam a avaliar o custo­-benefício da leitura de um livro pela altura da sua lombada. As histórias em quadrinhos, vilãs da nossa infância, condenadas por nossos pais e pedagogos por nos pouparem à mente o esforço exigido pelos livros de imaginar a feição e o movimento dos heróis, são abandonadas pela TV, que nos exime de pensar, já que pensa por nós.

Quem nos imaginaria lendo, hoje, compêndios maiores que a lista telefônica de uma grande cidade, tais como As mulheres de bronze, a caudalosa obra de Xavier de Montepin ou As aventuras de Rocambole, de Ponson du Terrail?

Por tudo o que foi dito, o texto a despertar o desejo da leitura e seu prazer há que ser curto, concentrando a densidade de seus múltiplos significados em linguagem simples e concisa. A partir dessa premissa, esses significados serão desdobrados, não nas páginas escritas, mas na recepção distinta que o referencial de cada leitor lhes concederá.

Os senhores poderão argumentar a falsidade da minha proposição ao apontar o fim do prestígio da oratória, com o simples assinalar do fato de que alguns templos, de religiões diversas, regurgitam de fiéis quando se anuncia a presença de determinado pregador. E eu me permito lembrar-­lhes que as peças oratórias desses encontros são providencialmente acompanhadas de curas, cânticos, gesticulação, dança e até sessões de exorcismo. Sem o quê, o emérito pregador correrá o risco de ver esvaziar-­se todo o seu público.

Augusto Olímpio Gomes De Castro

Mas, senhores, saiamos da nossa digressão sobre o crescente desprestígio da oratória e da retórica. Deixemos esta época moderna de azáfama e correria, e voltemos no tempo, mais e mais. Voltemos ao século 19. Mais precisamente aos anos de 1836 e 1862, datas que demarcam o nascimento de Augusto Olímpio Gomes de Castro, nosso patrono, e a sua primeira eleição para cumprir mandato de deputado na Assembleia Geral do Império. Saibamos apenas que, a partir daí, até findar o Período Monárquico, com o único intervalo da legislatura de 78­80, foi Gomes de Castro representante do Maranhão na Assembleia Geral Legislativa.

Convidado repetidas vezes para cargos da administração pública, inclusive para ministro das pastas da Fazenda, da Marinha e da Justiça, de todos escusou-­se, aceitando apenas a Presidência do Piauí em 1868 e a do Maranhão em 1870 e 1873. Incompreendido pelas ostras do poder, acusado de descomprometido e falto de patriotismo, deu­-nos, em discurso proferido na Câmara dos Deputados, esta magnífica lição de civismo:

Confesso à Câmara que sou um homem tão cheio de ambições como quem as tiver, mas entendo que serve bem ao país quem recusa empregos para os quais não se julga com habilitações […] Mas recusando o convite, eu disse ao nobre marquês de São Vicente, que penhorou eternamente a minha gratidão: não posso ser ministro, mas se em posições mais subalternas o Governo entender que algum serviço lhe possa prestar, disponha de mim.

E falar em Augusto Olímpio Gomes de Castro é falar de eloquência, e assim retomamos o gênero da oratória, inserindo-­o agora no contexto do século 19. É nessa época, época em que as pessoas compraziam-­se em ouvir longos discursos e sabiam valorizar os grandes oradores, que desejo situar o nosso eloquente parlamentar.

Há um testemunho de Afonso Celso, referido por Jerônimo de Viveiros, que define, sobremaneira, a grandeza da oratória do nosso tribuno:

Das centenas de oradores parlamentares que conheci, destacam‑se cinco, realmente extraordinários, que impressionariam o mais exigente e esclarecido congresso do mundo. […] Assisti às sessões nos principais parlamentos da Europa e América. Em nenhum deles deparou‑se‑me talento de tribuno superior aos dos que passo a apontar, procurando discernir a característica de cada um. Atraíam esses concorrência todas as vezes que falavam, possuíam a centelha divina; arrancavam aplausos e comentários que, repercutindo na imprensa, ecoavam pelo País inteiro.

Nesses maiores, Afonso Celso inclui Gomes de Castro e vai nomear, como seus epígonos, os grandes nomes contemporâneos da oratória no Brasil: Ferreira Viana, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Andrade Figueira.

É também de Afonso Celso, contemporâneo de Gomes de Castro na Câmara e testemunha da sua eloquência, esta apreciação do seu discurso:

Borbulhavam‑lhe as frases dos lábios como de um inesgotável manancial, sempre num jorro espesso. Tersa, impecável a linguagem. Quase não fazia pausas, não lia, não compulsava apontamentos, não bebia água. Prolongava‑se difuso o discurso ora fervilhando, ora remoinhando, ora se aquietando em remansos líricos, porém constantemente copioso, vertiginoso mesmo.

Imaginai um país inteiro preso à beleza da prosa de um grupo de mestres da retórica que, ao discutirem os problemas magnos do país, na dialética de discernir o falso do verdadeiro, cuidavam da pureza da linguagem e da beleza do estilo. E segundo nos revela Dunshee de Abranches, Gomes de Castro, em seus anos áureos, chegou a abalar ministérios com o poder da sua palavra elegante e apaixonada.

Não podemos deixar de comparar, senhores, estes monumentos da palavra tribunícia do nosso passado com o pauperismo reinante no debate entre os parlamentares das atuais legislaturas de todos os níveis, tanto na proposição dialética, quanto na retórica dos discursos – que o avanço das comunicações nos permite, felizmente ou infelizmente, acompanhar ao vivo. E fiquemos por aqui, na retórica, para não sermos obrigados a nos reportar à indigência moral que enlameia nossas instituições parlamentares e que preferimos não trazer à baila para não turvar a alegria deste momento.

Talvez, senhores, na busca do conhecimento da causa maior da decadência da retórica tribunícia no nosso país, cheguemos à descoberta de que teríamos compartilhado do mesmo fenômeno acontecido a Atenas – a grega, não a maranhense – e que foi referido por Ernst Curtius, na sua obra Literatura europeia e Idade Média latina:

[…] com a perda da liberdade, a eloquência política perdeu toda a importância. […] O discurso forense também retrocedeu pois não havia mais processo público. A retórica helênica refugiou‑se nos exercícios escolares.

Talvez os anos da ditadura tenham enfraquecido e desesti mu lado o discurso político em Pindorama e este, para nossa maior indigência, sequer refugiou­-se nos exercícios escolares.

Pedro Braga Filho

Mas nem todos os tribunos se acovardaram e calaram a voz ante à repressão. Um deputado maranhense, fiel ao princípio da liberdade de expressão e autonomia do Poder Legislativo, de nome Pedro Braga Filho, pronunciou esta oração, no Congresso Federal, em pleno 1964:

Ao terminar este discurso em defesa do Congresso Nacional, do qual sou um dos membros, quero exortar os meus pares para que, juntos, unidos, pensando unicamente nos supremos interesses da democracia brasileira tenhamos a coragem cívica de mantermos abertas as portas desta Casa do Povo, se for possível, mas tenhamos também a coragem moral, para que possamos, amanhã não nos envergonharmos de nossos filhos, de fechá‑las, se for impossível continuarmos aqui sem temores, sem concessões escusas, exercitando os nossos mandatos nos termos da Constituição que juramos cumprir e defender! Se for em vão a nossa luta para mantermos a dignidade deste Parlamento que é a própria dignidade da democracia brasileira, então, Sr. Presidente e Senhores Deputados, antes que nos envolva a todos a mortalha da Ditadura, saiba, pelo menos este Congresso Nacional “morrer porque viver não soube”.

Este tribuno de quem vos falo e cujas palavras reproduzo, Pedro Braga Filho, jornalista, médico e parlamentar, foi o fundador da Cadeira de número 39, desta Casa.

E é Pedro Neiva de Santana, sucessor do tribuno Pedro Braga na Casa de Antônio Lobo, que, ao perseguir os fios textuais de seu antecessor, vai oferecer­-nos, no fragmento abaixo, uma apreciação da obra de Pedro Braga como mais um contributo para a identificação dos fios imbricados deste novelo literário: […] um escritor de largos recursos, alicerçados em amplos conhecimentos literários, sobretudo de letras francesas, orador brilhante, seus trabalhos literários publicados em livros são escassos, ao contrário do que se verifica com a bibliografia técnico‑científica, que é bastante rica.

No continuum do desvendar a obra deste autor e para aqueles que desejam conhecê-­lo mais, recomendamos a leitura do livro Memorial de Pedro Braga Filho. É a compilação de alguns dos seus discursos, pronunciados nas tribunas da Academia Maranhense de Letras e da Câmara dos Deputados, publicada para aumento da sua fortuna crítica, pelo escritor Fernando Braga, que também se ocupou da seleção dos originais e das notas com que foram enriquecidos.

Pedro Neiva de Santana

Senhores, se privilegiei a eloquência como o ponto de partida da vocação da Cadeira 39, não poderia deixar de lembrar que o patrono e o seu fundador também foram políticos representantes do Maranhão no parlamento nacional. E, embora seja saudável que não haja Cadeira cativa de determinados ramos da arte literária ou da ciência, a tendência à política e ao cultivo da oratória seguem, como se o nosso fio condutor, continuando a sua trajetória, houvesse se entrelaçado, promovendo idas e vindas entre os ocupantes desta cátedra.

Pedro Neiva de Santana, nascido no ano de 1907, em Nova Iorque, pequena cidade do Maranhão, era médico e professor universitário, como Pedro Braga – fios a entrelaçarem-­se novamente. Político e cultivador da arte do bem falar, a exemplo do patrono Gomes de Castro e do antecessor, Pedro Braga Filho, embora a sua tribuna não fosse a de parlamentar e sim a cátedra da Universidade Federal do Maranhão, instituição da qual foi reitor.

Não obstante tenha sido prefeito da cidade de São Luís e – volta o fio ao princípio – governador do Estado, assim como Gomes de Castro exerceu idêntico e elevado posto, então denominado presidente da Província, Pedro Neiva sempre negou a sua condição de político, somente aceita na ampla acepção aristotélica do termo. Pires Saboia, seu sucessor e contemporâneo, presta decisivo depoimento a esse respeito, desabonando a interpretação restritiva do antecessor:

Político ele o foi e da melhor cepa. Só um hábil político chegaria, entre nós, à mais alta magistratura do Estado. O estilo é que, de certo, o diferenciava dos demais políticos do seu tempo.

No volume intitulado O momento das decisões, estão enfeixados alguns discursos pronunciados quando esteve à frente do governo do Estado. São discursos elegantes, sóbrios, mostrando conhecimentos literários e intimidade com os clássicos. Nesse volume, há uma mensagem de Natal, tocada de lirismo que bem pode ilustrar a elegância e simplicidade de seu estilo. Direto, sem rebuscamentos de qualquer ordem. Aqui transcrevemos um fragmento:

Nesta hora eu quereria minhas mãos nas praças, nas ruas, nas ladeiras, nos campos, nas portas de todas as igrejas, após as missas. Eu me quereria em cada lar, presente como agora aqui bem perto dos meus. Eu me quereria assim para poder felicitar pessoalmente a todos e nesse gesto recolher de cada um a sua solidariedade e dar a cada um a minha certeza, a minha fé. Nesta hora, mais do que a Mensagem, o Natal me inspira a prece. E eu quereria minhas mãos anônimas, erguidas ao lado das de vós todos, para que as minhas preces tivessem a mesma linguagem de vossas preces.

Os ensaios, discursos acadêmicos e conferências de Pedro Neiva, dispersos, ainda esperam para serem reunidos em livro.

José Pires de Saboia Filho

O entrelaçamento dos fios deste novelo, que tecem a trama da Cadeira 39, prossegue na obra de José Pires de Saboia Filho, por uns chamado José Pires (lá para as bandas do Ceará) e de Pires Saboia, ou simplesmente Saboia (no Maranhão). E o tecido jurídico e jornalístico que vem lá de Gomes de Castro alarga-­se, enriquecido com a contribuição de Pires Saboia. Para completar a urdidura, é mister juntarem-­se aí, também, as fibras do magistério de Pires Saboia às de Pedro Braga e Pedro Neiva de Santana, assim como as linhas e volteios da política magistralmente exercida por todos os que se assentaram nesta Cadeira.

E assim, o novelo, agora desenovelado, transforma-­se em uma tessitura de fios imbricados que se entretecem e se completam, formando o tecido inconsútil do manto que agora recebo para zelar e complementá-­lo com outras tessituras, procurando aformoseá­-lo, para assim transmiti-­lo, íntegro, ao meu sucessor, quando meu tempo se completar.

Falar de José Pires de Saboia Filho, meu antecessor na Cadeira 39 da Casa de Antônio Lobo, não é tarefa penosa, apesar das inquietações, já de início reveladas, trazidas por esta prova oral a que me submeto para ser ungida como imortal, tal a riqueza da sua figura humana e as múltiplas facetas da sua versatilidade intelectual.

Pires Saboia (como passou a ser conhecido no Maranhão) chegou em 12 de outubro de 1944 a São Luís, para assumir a direção, na região, dos Diários Associados, a poderosa empresa de Assis Chateaubriand.

Deixemos a ele a tarefa de contar como isso se deu:

Um incidente profissional. Não houve planejamento nem premeditação.[…] recebi um apelo do hoje senador João Calmon, então Diretor‑Geral dos Diários Associados do Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas. João Calmon necessitava de minha presença imediata em São Luís para substituir, por pouco tempo, o diretor dos jornais, que havia regressado inesperadamente ao seu Rio Grande do Norte. Eu deveria permanecer no Maranhão apenas até a substituição do antigo diretor. […] meus serviços eram necessários numa emergência, e a minha saída do Ceará teria curta duração. Dois dias depois estava nesta linda cidade.

E ele complementa este introito, poeticamente, acrescentando dois versos alexandrinos:

Em outubro, foi‑se a Ditadura de Vargas.
Eu é que nunca mais me fui do Maranhão.

Este cearense de Independência nasceu em 16 de abril de 1916, filho de Maria Adélia Saboia e de José Pires de Saboia, o Senhor Pires. Começa seus estudos primários aos dez anos de idade, na escola particular da fazenda de seus padrinhos de batismo, Cachoeirinha. Somente aos quatorze anos, em 1930, já matriculado no quarto ano primário no internato do Colégio Cearense, em Fortaleza, é que se iniciam os seus estudos regulares.

Essa demora em nada vai mudar a urdidura do tecido da vida de quem já em si trazia as sementes de grandeza à espera apenas das condições propícias à germinação. Pires Saboia, em 1943, logo após bacharelar-­se em Direito, já exercia a chefia da redação do jornal Unitário, pertencente aos Diários Associados.

Conheci Pires Saboia, assim como Dona Iracema e os filhos do casal, nas visitas que as nossas famílias trocavam, na minha meninice. Lembro-­me dos aniversários na casa da rua Rio Branco, esquina com a Jansen Müller; da calma de Dona Iracema ao lidar com o batalhão de filhos, sete para ser mais precisa, e do apreço do meu pai pelo Saboia, como ele o chamava.

E conclamo aqui, para vos apresentar o acadêmico a quem devo suceder nesta noite, o romancista Josué Montello, seu compadre e amigo:

Mais ou menos despenteado, as abas do paletó perenemente abertas, uma ponta de cigarro na mão esquerda, Pires de Saboia nos dá, de início, a impressão de ser o homem mais desorganizado deste planeta. Esta impressão se confirma com um olhar de relance por sua mesa de trabalho, capaz de rivalizar com a do Barão de Rio Branco e onde se acumulam jornais e correspondências, cinzeiros e livros, fotografias e envelopes soltos, mas onde a mão do dono por uma intuição verdadeiramente espantosa, sabe encontrar num segundo o que os dedos impacientes saíram a procurar.

E continua Josué a delinear a figura singular de Pires Saboia:

Por seu lado, a desarrumação da figura humana não se harmoniza com o seu espírito admiravelmente organizado. E essa organização se faz sentir no momento em que Saboia se instala na sua condição superior de mestre de Direito.

As distrações de Pires Saboia tornaram-­se folclóricas em São Luís. Todos os seus amigos têm uma história para contar. Ou é a história da vez em que ele, enquanto ministrava aula de Direito Civil, na antiga Faculdade de Direito, acendeu dois cigarros ao mesmo tempo, como não era raro acontecer, e pôs, inadvertidamente, um no bolso do paletó que começou a pegar fogo; ou é aquela outra de quando, esquecendo o local onde havia estacionado o carro, procurou-­o por algum tempo e, não o tendo encontrado, concluiu terem-­no roubado e foi dar parte à polícia.

Bem, pelo menos nesse pormenor, creio que Pires Saboia será bem representado nesta Academia. Também sou uma campeã da distração. Há algum tempo atrás, esquecendo onde havia estacionado meu carro, procurava-­o, disfarçadamente, como quem não quer nada, no estacionamento da Igreja de São João. Logo, vem um flanelinha e me diz: “– Sei onde está seu carro. Fiquei tomando conta dele. Sou seu freguês.” Desconheci o cujo e disse-­lhe: “– Deixa de história, menino, você nem me conhece.” “– Conheço, sim. Não é a senhora que fecha sempre o carro com a chave dentro?” Aí me rendi. O danado era mesmo meu freguês.

Fechemos a digressão. A par das distrações, Saboia era um espírito ágil, de pensamento aguçado, com uma enorme versatilidade e extraordinária capacidade de apreensão em vários campos do saber. Esse aparente descompasso entre o exterior e o interior, entre o ser e o parecer, tornavam-­no especial e atraíam para sua pessoa simpatias inusitadas.

Embora cearense de nascença, no Maranhão encontrou o seu chão. Chão onde medrou, casou e teve filhos, e assim foi diretor d’O Imparcial, advogado conceituado, professor universitário, deputado federal em duas legislaturas e secretário do Interior e Justiça. Sobre o Saboia maranhense, ele próprio declara:

Desde cedo, e de todo, integrei‑me, espiritual e intelectualmente, à comunidade maranhense. Ao Maranhão devo todas as minhas conquistas profissionais e tenho para com os maranhenses uma dívida irresgatável: a excelsa honra de tê‑los representado no Congresso Nacional em dois mandatos de deputado federal. Ao Maranhão devo a minha mulher, Iracema, nascida na cidade de Brejo, filha do poeta e jornalista Raul de Freitas, que pertenceu aos quadros desta Academia.

O Cronista

Saboia escreveu crônicas diárias no jornal Unitário, de Fortaleza, durante dois anos seguidos, os de 1942 e 1943, sob o pseudônimo de Shelley. Sobre elas, confessa que são crônicas ligeiras, escritas sempre à noite, em meio à incessante agitação que se observava normalmente numa redação de jornal dos velhos tempos. Essas crônicas chegaram a somar umas trezentas, das quais, setenta e sete encontram-­se enfeixadas no volume As crônicas da mocidade no Ceará.

As primeiras crônicas – o autor as apresenta em ordem cronológica – são leves, com ares de crônica social, recheadas de lirismo, versando sobre assuntos diversos, dirigidas – à moda de Machado de Assis – às moças, não do Rio de Janeiro, mas às de Fortaleza. Decerto, pelo estilo das crônicas, atingir esse público foi a incumbência primeira, determinada talvez pelo próprio jornal.

Apesar de sua proposta e da urgência da feitura, essas crônicas se revelam peças surpreendentes: de uma prosa moderna, linguagem coloquial e sem rebuscamentos e com momentos de verdadeiro lirismo. Denotam já o estilo límpido do prosador e editorialista de escol que Saboia se tornaria no futuro. Mostram que ele poderia ter conseguido destaque nos rumos da prosa de ficção se a ela se dedicasse.

É de notar­-se que estas crônicas, mesmo estando inseridas cronologicamente na década em que surge a famosa Geração de 45, tendente à reelaborar ritmos antigos e maior disciplina formal, não se submetem à tendência dominante: não são informadas pela imagística da estética do universo parnasiano ou neossimbolista. Seu vocabulário não é frequentado, como os de grande parte de outros cronistas e escritores da época, por musas, deusas, sílfides, ninfas, náiades, e sim por mulheres comuns. Por vezes misteriosas, como a possuidora de um “narizito arrebitado” ou uma “branquinha”. Que descubro mais tarde serem a mesma pessoa.

Aliás, o rumoroso caso da crônica do “narizito arrebitado” é interessante e vai desempenhar papel importante na história da vida de Pires Saboia. Vejamos como se desenrola este imbroglio: recém-­saído de uma leve enfermidade, o cronista lamenta ter adoecido justo no mês de maio e relata o porquê. Leiamos um fragmento da crônica As Novenas do Mês de Maio (maio de 1942):

Para mim, Fortaleza nunca se apresenta mais simpática do que durante estes 31 dias de novenas em todas as igrejas e capelas. Mês das flores, ele é, em Fortaleza, o mês mais alegre do ano, o mês das tímidas meninas católicas que vão à igreja fazer rezar ou de flertar… Não, é muito sacrifício estar‑se enfermo no mês de maio. E bem sabe disso quem, como eu, adora essas suaves novenas de maio e anda atraído pela influência de um audacioso narizito arrebitado… Oh, essas novenas da Igreja do Patrocínio!

Essa crônica provocou um suave reboliço entre as leitoras de Shelley. Algumas, talvez enciumadas, o acusaram de impiedade, falta de religião, por ter fugido à hipocrisia reinante à época e revelado o verdadeiro motivo de suas idas às novenas de maio. Há réplicas e tréplicas. Em meio a isso, Pires Saboia, escreve uma outra crônica: O “Narizito Arrebitado” Está Muito Acima, Sabe?

Realmente a dona do narizito arrebitado estava mesmo muito acima das outras. Prova-­se o fato. Ela, que involuntariamente tanta celeuma provocou, tornou-­se a esposa de Pires Saboia, sua fiel companheira durante mais de meio século e encontra­-se hoje aqui, nesta noite memorável, sentada bem à minha frente: dona Iracema Saboia.

A fase das crônicas, das amenidades, das discussões sobre flertes e novenas dura pouco mais que nada. Em pouco tempo as crônicas sociais se modificam e dão lugar a outras de temática mais séria, a versarem sobre problemas sociais, a fome e seca no sertão do Ceará, as misérias e horrores da guerra. O estilo firma-­se e a linguagem atinge mais força e vigor. O cronista toma posições e defende ideias e ideais. Em ambas as fases vamos encontrar pequenas obras-­primas de delicadeza e emoção, como Branquinha, da fase inicial, e Inverno, pertencente ao grupo das mais maduras.

O Poeta

A Fase da Poesia, como a chama o próprio Saboia, desenvolveu-­se de 1935­1938, quando ele cursava o Liceu Cearense. Formou­-se aí um núcleo de poesia composto por um pequeno grupo de jovens literatos, liderados pelo poeta Haroldo Torres, que viria a ter certa nomeada na literatura da década de trinta no Ceará.

Este núcleo, de vida breve, encerra­-se com as mortes prematuras, aos 21 e 22 anos, respectivamente, do próprio Haroldo e de Sinó Pinheiro, dois dos maiores amigos de nosso jovem poeta…

Aos vinte anos, Pires de Saboia escreve dois sonetos, os quais, como ele próprio revela em Lembranças de um advogado, de pronto o projetaram em todos os círculos literários do Ceará. O Farol do Mucuripe, o mais divulgado e apreciado, foi acolhido no Cancioneiro de Fortaleza, de Arthur Benevides, e A Curva do Destino figura na antologia Sonetos cearenses, de Hugo Vítor

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Vejamos:

A CurvA do destino

Some‑se a estrada na floresta turva,
Onde o sol, ao cair no chão, parece
Transformar‑se em estrelas… Sobe e
desce Os alcantis da serra, numa curva…

E eu subo e desço e sinto que se enturva,
Nas surpresas da volta, no
interesse, Que me fascina, a
desejada messe, Sedutora, da
estrada que se encurva.

Futuro é uma curva que se lança
No mistério do além… exposta ao
luto Do presente e aos acentos da
esperança.

Cego viajor, caminho resoluto! Sigo…
Mas sofro a angústia que balança,
Incógnita, na curva de um minuto!

Em 1937, o poeta reuniu suas produções num volume que seria seu livro de estreia, com o nome de Vibrações. Desistiu de seu intento ao constatar que as novas poesias nada acrescentariam ao renome que, no Ceará, adquiriram os dois sonetos Farol do Mucuripe e a A Curva do Destino. Pressentindo que a sua realização estaria em outros campos, abandona a poesia em 1938. Alguns de seus poemas de juventude foram musicados por seu filho Francisco de Assis e gravadas em CD, em diversos ritmos, baião, valsa etc.. Uma perfeita simbiose entre letra e música e entre os talentos de pai e filho, resultando num trabalho muito agradável aos ouvidos.

O Jornalista

A faceta de Pires Saboia que os maranhenses mais conhecem e reconhecem é a do jornalista. O diretor de jornal que soube abrir espaço entre os da terra, conquistando amigos, integrando­-se ao espírito maranhense; o editorialista intuitivo cuja capacidade de apreender o mundo à sua volta não o reduzia a mero expositor de fatos, pois que os interpretava com traço marcante.

Para cumprir melhor o compromisso com a verdade deste texto, transcrevo depoimentos de amigos e companheiros de trabalho de Pires Saboia, que certamente, melhor que eu, saberão apresentar-­lhes a figura humana do grande jornalista recém-­retirado do nosso convívio.

Diz Vera-­Cruz Santana, em seu discurso de recepção a Saboia, quando de sua posse na Cadeira 39:

[Saboia] foi entrando, aos poucos, na família jornalística maranhense, revelando desde os primeiros passos, compreensão de sua tarefa e profunda fidelidade aos princípios éticos, sem prejuízo da linha que a poderosa organização a que servia impunha a quantos se deslocassem a seu serviço. […] Ágil e lúcido no escrever, datilografando com dois dedos, Saboia criava, em tempos mínimos, artigos que sacudiam a cidade, pela limpidez de estilo e pela prudência ética. Honesto como os que mais sejam, nunca fez do jornal gazua para abrir cofres alheios.

Outro grande jornalista, confrade de redação e de Academia de Letras, Nonato Masson, no artigo Memórias de Uma Sala, publicado em Lembranças de um advogado (1997), relembrando velhos tempos, descreve o confrade:

[…] escancara‑se, de par a par, a porta da sala. Por ela entra como um tornado a figura agigantada, inquieta, trovejante do Saboia. É o mesmo homem, autêntico nos seus rompantes, solidário nas horas precisas, forjador de talentos, mestre de repórteres e de chumbeiros. [..]. Aqui, em Brasília ou no Rio, ele está sempre presente, orientando, ensinando, estimulando os novos. São necessárias muitas mãos para que se conte nos dedos os moços que ele transformou de chumbeiros em advogados, de revisores em deputados federais ou autores de livros, de repórteres em secretários de jornal […] E de jornaleiros em repórteres, como foi o meu caso..

O Jurista e o Político

Pires Saboia, apesar de reiterados convites, retardou seu ingresso na política, e somente aceitou oferecer seu nome à candidatura de uma cadeira na Câmara dos Deputados, quando já era altamente considerado como jornalista, além de professor de Direito Civil da Faculdade de Direito do Maranhão, advogado do Banco do Brasil, de larga experiência e com uma coletânea de pareceres de alto saber.

Quando se decidiu a entrar na política, não o fez como aventureiro. Possuía demarcados objetivos de realizar, na Câmara dos Deputados, trabalhos centrados no campo do Direito. O principal deles: mobilizar esforços, sobretudo na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, para consolidar, com substancial redução do seu número, as leis brasileiras que atingiam, então, num aglomerado caótico, mais de cem mil diplomas legais.

Eleito, Pires Saboia foi escolhido membro da Comissão Especial constituída em 1967 para apreciar o projeto de lei que instituía o novo Código de Processo Civil. Contrário a essa instituição, ele defendia que era mister, sim, atualizar e aperfeiçoar, tanto quanto possível, o nosso Código de Processo Civil, sem, no entanto, desfigurar-lhe a soberba estrutura testada com sucesso em quase cinquenta anos de vigência. Em poucos meses de trabalho da Comissão, esse projeto foi retirado da Câmara dos Deputados, por motivos pouco esclarecidos.

Pires Saboia continuou sua batalha, envolvendo­-se, como relator, em muitos outros projetos de lei relativos a alterações no Código de Processo Civil, neles deixando a sua marca de jurista brilhante.

Em 1979, após deixar a Secretaria do Interior, Justiça e Segurança do Maranhão, reassume as funções de Consultor Jurídico dos Diários Associados, em âmbito nacional. Nesta função, sua sustentação no campo da doutrina jurídica e nos grandes embates judiciários refletiu-­se nas sucessivas vitórias assinaladas pelo Condomínio Acionário dos Diários Associados, do qual era membro.

Apesar de os maranhenses conhecerem e admirarem mais o Saboia jornalista, talvez a atuação como jurista tenha sido a sua missão mais significativa e de maior projeção nacional. Em crônica escrita por ocasião de sua investidura como representante do povo maranhense, Josué Montello o chamou de “um jurista na Câmara dos Deputados”. E durante todo o período do seu desempenho político (foi deputado federal em duas legislaturas), Saboia honrou esse epíteto, reafirmando sempre mais e mais a sua condição de grande conhecedor do Direito.

Senhores, tracei-­lhes aqui o breve perfil de um homem que se destacou nas funções de jornalista, poeta, cronista, jurista e parlamentar; de um maranhense do Ceará, mas sobretudo o de um homem bom. Um dos seus últimos gestos de desprendimento e amor ao próximo foi a criação da Fundação Senhor Pires, em Independência, sua terra natal. Essa Fundação, à qual ele doou trezentos mil reais, terreno e sede própria, tem como objetivo principal desenvolver, no Município de Independência, atividades no campo da alfabetização, certamente inspirado no menino de interior que somente aos dez anos foi matriculado no primeiro ano primário.

A l´oeuvre on connaît l´artisan, nos ensina o fabulista La Fontaine, e as boas obras de Saboia aí estão, provadas nos depoimentos dos que o conheceram intimamente, dando­-nos a medida do homem que ele foi.

Meus próprios fios

Desenrolado está, ainda que desajeitadamente, o novelo dos ilustres que me antecederam na Cadeira 39 e exposto o tecido urdido por eles. Antes de aí imbricarem-­se os meus próprios fios, desejaria mostrar­-vos algo do parco tecido que trago como oferenda à Casa de Antônio Lobo. É uma modesta teia entremeada ora com os fios de meus deuses-­lares, ora com os de alguns numes tutelares de todas as gerações.

O fio que aponta primeiramente é o de meu avô, Henrique Costa Fernandes, acadêmico desta Casa, historiador, jornalista, erudito autor da obra Administrações maranhenses, sobre as administrações da Primeira República no Maranhão.

Lembro que, quando em casa, sisudo e formal, ele ficava recolhido no quarto, onde lia e escrevia, escanchado em uma rede baixa, com uma prancheta no colo. Ali, ninguém ousava perturbá-­lo. Ou por outra, quase ninguém, pois quando eu, correndo de uma provável chinelada de minha mãe, entrava quarto a dentro, como um furacão, a pedir proteção, ele levantava a varanda da rede e me fazia um sinal cúmplice. Rapidamente eu entrava no abrigo e ele me cobria mal com a varanda. Gato escondido com o rabo de fora, ou melhor, com os pés sujos de fora. Minha mãe, respeitosa, não querendo contrariá-­lo, dizia: “Dr. Henrique, esta menina está impossível”. E ele perguntava, olhinho esperto: “Menina? Quê menina?” E ela não retorquia, que ninguém tinha essa coragem, e ia embora. Livre do castigo, eu pulava na rede e quase não parava para ouvir as suas reprimendas risonhas.

Este homem, que assim se transformava com a neta, contou-­me muitas e muitas histórias de velhos tempos, nunca esquecidas, e contribuiu para que eu visse a Academia Maranhense de Letras com familiaridade e simpatia.

Entrevejo, na minha teia, um outro fio como que escondido. É difícil puxá-­lo, porque dele, como do herói que lhe deu o nome, só lhe sei as lendas. É o de Ulysses Costa Fernandes. Poeta e boêmio. Meu tio, morto aos trinta e três anos. Contam os que o conheceram que era uma figura gostável, sedutora. Escreveu e publicou um livro de poemas denominado Mármores. Tinha, dizem, outro inédito. Nunca foi encontrado.

Ulysses declamava poesias em programas de rádio, fez parte do Cenáculo Graça Aranha e era amigo de Viegas Netto, Josué Montello, Ariceya Moreira Lima, Franklin de Oliveira e Manoel Caetano Bandeira de Mello. Com estes dois últimos, aos vinte e um anos, tomou um navio do Lloyde Brasileiro, o Comandante Ripper, e partiu a cumprir sua odisseia por mares distantes. Nenhum dos três viajores regressaria mais a Ítaca, para fazê-­la novamente seu pouso definitivo.

Unindo as pontas desses dois fios, fortemente, com um laço amoroso, está Francisco Costa Fernandes Sobrinho, meu pai. Emérito orador, cometedor de poemas na juventude, jurista, erudito, com dois trabalhos jurídicos publicados – sem qualquer divulgação – e muitos outros na gaveta.

Mas nenhuma das suas produções intelectuais me valeu tanto como os caminhos que ele me mostrou. As orientações de leituras, as conversas sobre Eça, Camilo, Chateaubriand, Flaubert, Alexandre Herculano, Voltaire e muitos outros, principalmente sobre os clássicos franceses. Uma salada mista, convenhamos, mas que me abriu e aguçou os sentidos para apreciar o sabor da leitura.

No terraço da nossa casa, à noite, olhando o céu, ele me falava de tudo. Desde Flammarion a Einstein. Das moléculas, dos átomos e de Tomás de Aquino. Não importava quantos anos eu tivesse. Os assuntos eram sempre muito além. Só que ele os adequava à minha idade da ocasião, e eu me sentia uma adulta.

Só o tive até os dezessete anos. Mas dele soube e aprendi como são abomináveis os preconceitos e os julgamentos apressados, e que a falta mais grave que um ser humano pode cometer é não ser verdadeiro.

Outro fio corre ao meu lado e à minha frente. Outro Costa Fernandes, que embora mais jovem, já teceu mais que eu. O escritor, poeta, ensaísta e romancista de premiação internacional: o meu irmão, Ronaldo Costa Fernandes. Sempre pensei nele como o continuador do meu avô Henrique, nesta Casa, nunca em mim. Mas a vida tem dessas surpresas…

Finalizo, que já devem estar ansiosos para ouvir a peça literária que virá a seguir, a oração a ser proferida pelo confrade Joaquim Itapary, que aceitou honrar-­me com a sua recepção. E quero, ainda, fazer uma última homenagem: dedicar esta noite a alguém muito especial.

Esta pessoa é o grande poeta, cronista e ensaísta Lago Burnett, visionário para além do parecer, a descobrir o desejo, por mim despercebido, de ser linha fiada e torcida dessa teia textual, eternamente composta, porque sempre inconclusa.

Alguém que trouxe a lume um tênue veio literário – assim percebido – nos versos rascunhados dos meus oito anos.

Cometi os versos e parei. Sei que lhe frustrei expectativas. Muitos anos se passaram até que eu começasse a fiar e tecer, e outros mais ainda para ter a ousadia de me mostrar tecedeira.

Então, Lago Burnett já havia partido.

Não seria bom que ele estivesse aqui esta noite? E creio que ele está sim, ali, ao lado de Maria José, assim como estarão também Pires Saboia, Pedro Braga, Pedro Neiva, Gomes de Castro, Henrique, Ulysses e Francisco Costa Fernandes.

E aqui saúdo a minha família presente, razão de tudo que faço: marido, mãe, irmão, filhos, nora e genro, e abro os braços afetuosos aos meus colegas, novos irmãos, nova família, para a convivência intelectual que se inicia.

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