Perfil do Acadêmico

Cadeira 26

Carlos Thadeu Pinheiro Gaspar

Naturalidade:

Viana - MA

Data de Nascimento:

5 de dezembro de 1939

  • Antecedido por:

    Recepcionado por:

    Mário Meireles

  • Data de Eleição

    14 de julho de 1994

    Data de Posse

    01 de dezembro de 1994

Biografia

Nasceu em Viana-MA, a 5 de dezembro de 1939. Ainda criança transferiu-se, com a família, para São Luís, cidade em que fez sua formação educacional: cursos primário no Colégio Maristas (1946-50), ginasial no Colégio Maristas (1951 a junho de 1953, até a metade da 3ª série) e no Colégio de São Luís (ago.1953-54) e de técnico em Contabilidade na Escola Técnica de Comércio do Centro Caixeiral (1955-57). Bacharel em Direito (1963) pela Faculdade de Direito de São Luís; bacharel (1962) e licenciado (1963) em História e Geografia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Maranhão (atual UFMA), instituição de que foi professor, lecionando, ao longo de 16 anos, História da Antiguidade, História da Cultura, História do Maranhão e História das Religiões.

Dedicando-se, em seguida, às atividades empresariais, segmento do qual é uma das mais expressivas lideranças, vem dirigindo as diversas empresas que fundou, e tem desempenhado relevantes funções em entidades ligadas à vida econômica maranhense, como, por exemplo: presidente da Junta Comercial do Maranhão (1976-77); vice-presidente da Confederação das Associações Comerciais do Brasil (1994-96), 1° vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão-Fiema e do Serviço Social da Indústria-Sesi; 1° vice-diretor do Serviço Social de Aprendizagem Industrial-Senai; presidente do Clube de Diretores Lojistas de São Luís (1984-88); da Associação Comercial do Maranhão (1990-94), do Conselho Deliberativo do Sebrae-MA e da Federação das Associações Empresariais do Maranhão (1994-98), membro do Conselho Universitário da Universidade Federal do Maranhão.

Empresário do Ano (1990), possui entre diversas outras honrarias, a Medalha La Ravardière, da Prefeitura de São Luís, a Medalha do Mérito Timbira, do Governo do Estado, e a Medalha da Ordem Timbira do Mérito Judiciário, do TRT-16ª Região (no grau de comendador).

Bibliografia

Dunshee de Abranches (discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão). São Luís: 1993; Refazendo o caminho (crônicas). São Luís: Lithograf, 1993; Catedral de emoções (crônicas). São Luís: Lithograf, 1994. Caminhos percorridos (discursos). São Luís: 1994; Conto treze contos. São Luís: Lithograf, 1999.

Colaborou, desde 11 de maio de 1991 até o ano de 2000, n’O Imparcial, escrevendo aos domingos.

Discurso de Posse

Ainda conservo nítidas as imagens da minha chegada a São Luís. Vinha de longe, de terras distantes, onde me acostumara a conviver com a placidez de lagos encantados e com o verde repousante dos campos a perder de vista. Vinha de plagas diferentes, pousada também de bandos de garças brancas e morenas, de socós e japiaçocas, de jaçanãs e marrecas. Vinha de glebas tranquilas, em que o silêncio do amanhecer se transmudava na musicalidade oriunda da algazarra feliz das aves em liberdade, ritmada ao som do trote dos cavalos e do ranger das rodas do carro de boi, anunciando um outro dia de trabalho. Mas vinha, impulsionado pelo destino e pela vocação aventureira do sangue luso a correr-me nas veias, de Viana, meu inesquecível e imorredouro torrão natal, para São Luís, que me enfeitiçou com seus logradouros, sobradões, ruas, vielas, ladeiras, escadarias e história, depois de deixar para trás os segredos do Maracu, do Pindaré e do Mearim, até enfrentar as águas profundas e as ondas revoltas da baía de São Marcos.

Eram noites claras e bonitas, com a lua cheia parecendo mais próxima, mostrando na limpidez de meus olhos de menino o retrato de são Jorge, montado em seu ginete coberto de arreios doirados. As estrelas salpicadas pelo céu, acompanhantes na viagem desde a partida, davam-me a sensação de terem aumentado em quantidade e brilho, quando a velha lancha de Aracati Campos fundeou em frente ao Cais da Sagração.

O automóvel de praça tomou a direção da Praia Grande, passou pelo largo do Carmo e seguiu rumo à rua da Paz. Parou, entre a travessa da Passagem e a rua da Cruz, em frente a uma morada-inteira, onde, com mais seis irmãos, meu pai e minha mãe, pernoitei. Ali dormi o meu primeiro sono na Cidade de La Ravardière, e sonhei, envolvido no embevecimento dos contrastes fascinantes entre a capital em que acabara de aportar e a minha já longínqua cidade berço, com um novo mundo que descobria, tal os meus ancestrais ibéricos, a desafiar os pendores e os talentos que trazia comigo. Hoje me dou conta, após tanto tempo, de que a velha rua da Paz, naqueles idos de 1945, já profetizava acolher-me para sempre, vaticínio que agora se concretiza, ao ser eu admitido nesta Casa, situada na mesma artéria, para integrar os quadros da imortalidade, graças à vontade e à decisão de seus membros. Em assim sendo, apresento-me a vós, caríssimos consócios, com as mãos vazias de sabedoria, mas com o coração pleno de afeto, e com humildade bastante para perceber o muito que ainda preciso aprender para que possais incessantemente ter orgulho de mim.

Apresento­-me a vós, estimados confrades, com os defeitos das minhas qualidades e com as qualidades dos meus defeitos, como diria Joaquim Nabuco, porém convicto de que aquelas haverão de prevalecer, na busca de um relacionamento afável, harmônico e salutar. Por outro lado, desvaneço-­me pela preferência que tivestes por mim, para compor o restrito número de homens e mulheres que se propõem a venerar o passado, no afã de construir o amanhã da cultura maranhense. Naturalmente, avaliando as minhas potencialidades e acreditando na minha fidelidade aos princípios orientadores da Casa de Antônio Lobo, resolvestes conceder­-me a eminência acadêmica, antes como estímulo à minha vocação de escritor do que como um prêmio aos meus trabalhos.

Além do mais, estou consciente de que a escolha de um novo confrade traduz um desejo de convivência, acima de mera disputa eleitoral. Deparo­-me, então, distinguido com a vossa opção que, conquanto seja uma honraria das maiores, cria para mim deveres incontrastáveis, que somente poderão ser desobrigados ao longo do tempo, com o que vier eu a produzir intelectualmente, sob o estímulo de todos vós. Fizestes, pois, na linguagem empresarial, de mais fácil manejo para mim, um investimento, e eu vim aqui, nesta noite, como parte contratante, para vos afirmar, perante as testemunhas presentes e com a palavra de quem nunca falhou a seus compromissos, da minha disposição inquebrantável de corresponder à vossa visão prospectiva.

Ciente das dificuldades em desincumbir­-me sozinho, com as limitadas disponibilidades de requinte cultural a meu alcance, na manutenção de tão inestimável herança, recorrerei, como sempre o faço nos momentos de aflição, à bênção da minha saudosa mãe, merecedora de loiros e glórias, que consumiu o seu pouco viver nos desdobrados cuidados para comigo e meus irmãos; também ao meu inesquecível pai, amigo inseparável, com quem privei na afeição, na amizade, na intimidade e na afinidade, desde os quase dez anos de nascido, quando experimentei, ao seu lado, os titubeantes passos iniciais no universo dos negócios. Invocarei, com a mesma ênfase, as minhas duas mulheres, Paula e Socorro, esposa e filha, que incessantemente me estimularam e convenceram a que eu percorresse os caminhos que me guiaram a esta Casa, motivando­-me e impulsionando-­me ante este ou aquele empecilho. Finalmente, convocarei sempre os meus amigos mais próximos, por quem tenho um carinho especial, os quais, aliados aos aconselhamentos já de muito manifestados de minha mulher, me persuadiram de que deveria eu dar divulgação ostensiva às manifestações intelectuais, fruto de minhas inspirações, desde a juventude, mas até então desconhecidas. É que eu, em minha timidez quase indomável, sempre achei de escassa valia para os outros, tudo o que, ao longo de muitos anos, a espontaneidade de meu espírito revelava, materializada por mim, na tinta e no papel.

E ao concorrer a uma vaga neste Sodalício, conduziram­-me os fados a que eu o fizesse justo para a Cadeira patroneada pelo grande Antônio Lobo, Antônio Francisco Leal Lobo, o mesmo que, ao lado de vários homens de letras maranhenses, inquietados com o destino da cultura da nossa terra, seriamente abalada com a morte de algumas e com o êxodo, principalmente para o Rio de Janeiro, de outras tantas personalidades expressivas, foi um dos fundadores desta Academia e terminou por emprestar­-lhe, definitivamente, o próprio nome, motivo pelo qual é ela chamada Casa de Antônio Lobo.

Assim, pesado é o meu encargo, imensa a minha responsabilidade, pois me vejo no dever de, seguindo os conselhos de Mário Meireles a Ignacio Mourão Rangel, quando da sua posse em sessão solene semelhante a esta, nunca me esquecer de que ora me faço titular da Poltrona que está sob a invocação do maior dentre os idealizadores da Academia Maranhense de Letras. Por isso mesmo, conquanto o ritual acadêmico prescreva apenas que, neste momento, renda homenagem ao meu predecessor, jamais poderia abster-­me do elogio ao patrono da minha Cadeira, essa figura singular que nos deixou um dos mais luminosos exemplos de devotamento desmedido ao Maranhão, nas áreas da educação e da cultura, sem desprezar o jornalismo e a política, suas duas outras paixões. A propósito, para um homem da agudeza de Antônio Lobo, se a filiação partidária se apresentava como condição secundária, pois não consta haver ele perseguido mandato popular, a militância na imprensa significava o próprio ar que respirava, a sua própria razão de ser, pois através dela, e somente através dela, poderia disseminar as ideias de educador, de crítico de costumes e de político no significado mais puro do termo, que encheram sua alma e se extravasaram sem reservas, para se transformarem em uma autêntica e perene aula magna, que somente as grandes figuras humanas são capazes de proferir.

Daí então, senhoras e senhores, dignos confrades, no pórtico deste discurso ter usado o questionamento do célebre estudioso francês Michelet, pois desejava patentear que Laura Rosa, José Jansen, Ignacio Rangel e até com maior ênfase Antônio Lobo, abraçaram, de uma forma ou de outra, a educação e a política, visto terem numa ou noutra se inserido, ou em ambas, na plena consolidação de seus anseios. A imprensa foi, para o patrono da Cadeira 26, o instrumento indispensável na propagação de seu ideário e de suas teses. Aliás, pelas pesquisas que efetuei, regozijei­-me, em ver totalmente livres, sem censuras, retratadas nas páginas dos jornais, as expressões de pensamento de ativistas locais. Compreendi, então, que os ares influentes em decorrência da extinção do Império e da consequente empolgação pelo regime republicano recém-­implantado, teriam propiciado a integral franquia das criações que, com naturalidade, afloravam em tal circunstância. Daí concluir­-se ter sido, certamente, em face desse estado de alma, oriundo da filosofia democrática nascente, ou com ela consolidado, que a imprensa brasileira caracterizou­-se, na época, mais pela polêmica do que propriamente pela notícia. E é Fernando Morais, em seu livro sobre Assis Chateaubriand, quem confirma este meu raciocínio, ao dizer:

A polêmica era o palco ideal para o exercício da elegância, da erudição e, quase sempre, da ferocidade no ataque. Verdadeiro teste de resistência, sua importância podia ser medida pelo tempo que durasse, com os dois contendores de pé. Uma polêmica que só resistisse um mês não era digna de nome.

Como se vê, o tempo, no caso, é elemento fundamental, talvez até mais relevante que a essência da controvérsia. E desse contexto não se fugiu Antônio Lobo, figura de destaque nos meios intelectuais, pelos inúmeros méritos de que se fazia possuidor, desde que estreou em O Século, órgão estudantil que dirigiu com Aluísio Porto. Escreveu, a seguir, com frequência, em: Revista Elegante; Philomathia, órgão de que foi colaborador com Manoel de Bethencourt e Reis Carvalho; A Revista do Norte, que fundou e dirigiu juntamente com Alfredo Teixeira; nos diários O Globo, folha republicana criada por Paula Duarte e Casimiro Júnior; O Federalista; Diário do Maranhão; Pacotilha; O Jornal; e, por último, A Tarde (1915­1916), de que foi diretor e onde teve como companheiros, dentre outros, Domingos Barbosa e Ruben Almeida. Percebe­-se, então, que sua presença na imprensa local foi permanente e abundante, ensejando­-lhe a publicação de crônicas, artigos, ensaios, contos, romances e um sem-­número de gêneros literários brotados da espontaneidade de sua verve e da formação intelectual sólida que amealhou, embora curta lhe tivesse sido a vida.

Dotado de um estilo simples, desprovido de vocábulos empolados, bem a meu gosto pessoal, quase sempre realçado pelo conteúdo de fina ironia, legou-­nos uma produção farta e de leitura cativante que logo prende a atenção de quem, como eu, tiver o privilégio de fixar os olhos nas velhas páginas dos jornais da época e nos livros que escreveu ou traduziu. Foi, então, na perseguição e na análise desse inestimável acervo que, como disse há pouco, deleitei­-me com interessante polêmica travada entre o autor de Da carteira de um neurastênico e Manuel Fran Paxeco, também um dos fundadores desta instituição. Versava a querela sobre aspectos de ordem administrativa e pedagógica do Liceu Maranhense, estabelecimento de ensino de que Antônio Lobo era professor e diretor. Lente dos mais respeitados, titular da cadeira de Lógica através de brilhante concurso público, tal a erudição esbanjada e a dialética que aplicava na transmissão de seus saberes, tudo aliado a um dom oratório empolgante e persuasivo, fez­-se reverenciado por toda a sociedade de então, a partir de governadores, parlamentares e membros do Judiciário, até a estudantada jovem e empolgada ante a riqueza da bagagem intelectual do inolvidável mestre. A bem da verdade, a contenda que longamente sustentou com Fran Paxeco, nas páginas de Pacotilha, é um autêntico testemunho da sensibilidade invulgar e da visão larga acerca do ensino, em que aborda, dentre outras particularidades, a ainda hoje tão ineficiente profissionalização dos cursos de nível médio e a reformulação do sistema educacional do Maranhão como um todo.

A passagem de Antônio Lobo pela direção do Liceu, cargo que já ocupava quando assumiu o governo do Maranhão o dr. Herculano Nina Parga, em que pese a grande amizade existente entre os dois, culminou com o seu pedido de exoneração, em face das desavenças havidas com o secretário do Interior, dr. Raul Machado, a quem era subordinado. Os motivos, aparentemente sem gravidade maior, ensejaram uma troca de correspondências entre o subalterno e o superior, em que este, na falta de argumentos convincentes, terminou por achar­-se injuriado ante os termos exatos expressados pelo diretor do Liceu Maranhense, tendo, por isso, solicitado do sr. secretário de Justiça e Segurança a punição do funcionário, de acordo com a lei penal vigente. Esta decisão, salvo melhor juízo, portadora do sentimento da prepotência, do autoritarismo e da vingança, inerente aos desprovidos de espírito público e consciência democrática, levou o autor de Pela rama, às barras da Justiça, com a abertura de processo criminal destituído de qualquer fundamento. E novamente, através de uma série de artigos publicados no Pacotilha, sob o titulo A Nulidade do Meu Processo, deparo­-me não mais com o professor de Português, Francês, Inglês, Geografia e Lógica; nem tampouco com o tradutor, conferencista e romancista; muito menos com o bibliotecônomo revolucionário da época e de fazer inveja a muitos dos atuais; mas sim com o jurista de peso, a revelar linguagem fácil, porém correta no manejo da terminologia apropriada. Invade com surpreendente familiaridade os códigos das leis civil e criminal, substantivas e adjetivas, como se tivesse habitualidade nesse mister. Cita autores nacionais e estrangeiros, tudo sem perder de vista os fatos que originaram a ação, decompondo-­os com mestria inusitada. Disposto a trancar a ação penal, valeu-­se Antônio Lobo do instituto do habeas corpus, que lhe foi concedido por três votos contra dois, pelo Superior Tribunal de Justiça do Estado, após cinco horas e meia de julgamento. E é o mesmo jornal Pacotilha que nos revela ter sido o dito impetrante quem fez a defesa oral do pedido, muito embora houvesse constituído os drs. Clodomir Cardoso e Luís Carvalho, como seus advogados: “E sustentou­-a com brilho e eloquência, durante hora e meia, discutindo a questão jurídica com segurança e proficiência”.

Ilustres Confrades, senhoras e senhores, na medida em que descobria o filete do tesouro, mais minha ambição ia crescendo e não me contive enquanto não li grande parte do acervo que nos legou Antônio Lobo. Confesso que, ao fazê­-lo, já nem tinha em vista esta fala, pois cuido ser relevante e também gratificante o meu dever de enaltecer o meu antecessor, sobre cuja personalidade pretendo ainda deter­-me. É que deveras me impressionou de como, com tão pouca idade, poderia um homem dominar tantos assuntos, e todos eles com extrema profundidade. Entendo que o jornalismo polêmico, predominante no começo deste século, poderia tê­-lo incitado ao hábito benéfico da pesquisa e do estudo, mas tão multifacetada é sua cultura, que prefiro me convencer de que se trata, sem dúvida, de uma inteligência ímpar, de uma criatura superdotada intelectualmente e que, mercê de Deus, colocou todos os seus predicados ao alcance das pessoas e da terra em que nasceu e, como se não bastasse, doou-­lhes também a própria vida, pela causa que abraçou.

Assim, é digna de apreciação a sequência de artigos de sua autoria intitulados A Mensagem do Sr. Governador, publicada em O Jornal, na coluna Tribuna Livre. E mais não se estendeu porque, sendo esta uma seção à disposição do público, uma espécie de “coluna do leitor”, tão usada nestes dias, não poderia Antônio Lobo ocupá­-la indefinidamente. Porém, o que vi, ao regalar-me na concentração do conteúdo de A Mensagem, foi uma rara peça literária e científica ao mesmo tempo, abrangendo aprofundado saber de Direito Constitucional, Direito Civil e de Economia, em que o autor, ao expender irretocáveis lições jurídicas, hábil e equilibradamente, entremeou fartas e duras críticas à administração do seu amigo e colega de bancos escolares, dr. Herculano Parga, ao comparar o conteúdo da mensagem que o Chefe do Executivo remetera ao Congresso Legislativo, na abertura anual dos seus trabalhos, com o que de fato havia sido realizado. É provável que, não fosse o constrangimento a que se achou submetido com a ação criminal promovida por iniciativa do secretário do Interior, dificilmente o tradutor de Henriqueta, romance de François Coppé, teria trazido a público mais um dos aspectos de sua cultura invejável, nem tampouco teria denunciado práticas políticas de então, lamentavelmente ampliadas nos dias de hoje.

Perder­-me­i-a no tempo, a continuar discorrendo sobre a produção intelectual de Antônio Lobo, de tão vasta e importante, em quase todos os campos do pensamento. No entanto, devo dizer ter ficado deveras perplexo diante dos relatórios que elaborou, relativos aos anos de 1899 e 1900, na condição de diretor da Biblioteca Pública do Estado do Maranhão e apresentados ao então governador, dr. João Gualberto Torreão da Costa. Igualmente me fascinou o seu livro A política maranhense, uma análise do período correspondente entre a morte de Benedito Leite e o governo de Herculano Parga, Mesmo considerando a dosagem de passionalismo que permeia o texto, está nele evidenciado um conteúdo político-­científico que muito me ajudou a compreender melhor a história mais recente do Maranhão.

Sobre Antônio Lobo, agora, a parte derradeira. O jornal A Tarde foi sua última trincheira, de onde lutou ardorosamente, extravasando a mágoa que o perseguiu, até a despedida deste mundo, do governo Herculano Parga. As dificuldades financeiras experimentadas, com a suspensão do pagamento de seus salários de professor do Liceu, alargaram-­lhe aquele estado d’alma. Alguns periódicos da época registraram anúncios de Antônio Lobo, oferecendo­-se para dar aula particular, numa clara evidência de que estava à cata de recursos para prover suas necessidades básicas. A inesperada venda do vespertino A Tarde aos adversários políticos foi a gota d’água. Decepcionado, buscou na eternidade o refrigério para seus atrozes sofrimentos. A imprensa escondeu o fato lamentável, não se encontrando em qualquer de seus órgãos a real causa mortis de Antônio Lobo. Respeito à memória do mestre? Certamente. Mas, também, uma omissão injustificável sob o ponto de vista da verdade e da pesquisa histórica.

Caríssimos Confrades, senhoras e senhores, logo após se abrirem os umbrais desta Academia, para que eu nela pudesse adentrar, como agora o faço, sob a iluminação festiva desta noite solene, asseguraram-­me diversas pessoas da desenvoltura que teria para proclamar, com as glórias de que se faz credor, os dotes intelectuais do meu predecessor. É que, desempenhando eu, profissionalmente, a atividade empresarial, e tendo sido ele um notável economista, haveria entre nós, implícito, um elo perfeito, a facilitar o meu entendimento acerca da figura invulgar de Ignacio de Mourão Rangel. Vi­me, de pronto, embaraçado com a expectativa gerada. E mais ainda cresceu-­me a responsabilidade, quando escutei de Mário Meireles a observação de que a mim cumpriria, na oportunidade deste meu discurso, tornar ainda mais destacado quanto possível o nome do talentoso maranhense, que ora, honrosamente, sucedo e homenageio, neste Sodalício.

Em verdade, as premissas levantadas, aparentemente encontram justificativa, pois empresa e iniciativa privada são sempre citadas e avaliadas no âmbito e fora de suas atuações, sobretudo quando estão em cena estratégias com vistas à solução de problemas econômicos de um país. No Brasil, então, de histórica instabilidade nesta área, adapta-­se bem tal pressuposto, assentado na indisfarçável transferência de obrigações, que as forças interessadas em manter o seu status quo, tentam passar para a sociedade confusa e ansiosa. Eu mesmo, nos meus artigos e crônicas dominicais, vários deles consubstanciados no livro Refazendo o caminho, e trazendo em suas letras, por dever de meu ofício como representante de expressiva parcela de homens de negócios desta terra, conceitos, opiniões, críticas e análises do quadro nacional, posso ter induzido a que o raciocínio de alguns leitores se concentrasse na perspectiva enunciada. Embora estas minhas manifestações hajam se revelado de modo superficial e despretensioso, próprias dos leigos, reconheço que não me são de todo estranhas as regras mais singelas da ciência de Adam Smith. Aprendi­-as, devo dizer-­vos, no bojo curricular do meu bacharelado em ciências jurídicas e sociais, ao receber, na Faculdade de Direito de São Luís, as inesquecíveis aulas do professor Fernando Eugênio dos Reis Perdigão, titular da cadeira de Economia Política, nos idos de 1959.

Portanto, se não há, de minha parte, por pura escassez de domínio sobre a Ciência da Economia, neste aspecto, maiores afinidades com Ignacio de Mourão Rangel, existem, não obstante, pontos em que nos identificamos. Somos os dois, bacharéis em Direito, igualmente mantivemo­-nos longe das demandas forenses, porém soubemos optar por trilhas alternativas que, a um só tempo, nos conduzissem a vencer as agruras da vida e a deleitar o espírito irreverente na preocupação com a construção do porvir.

E imediatamente me vem à lembrança o velho prédio da rua do Sol, sempre portador de uma aura de magia contagiante, da qual, dos que por ali passaram, raros se conservaram a ela imunes. Foi precisamente naquela escola de Direito que se inaugurou a moldagem da minha formação política, ao enveredar pela primeira vez por uma facção partidária estudantil, com o objetivo de eleger­-me dirigente maior dos colegas universitários de São Luís. Segui, fruto da religiosidade que plasmou meu caráter, a linha orientada e apoiada pela Igreja Católica, até então presa exclusivamente aos terços, à liturgia e aos bens materiais, sem se aperceber ainda que a doutrina evangélica jamais poderia continuar indefinidamente estática ou guardada numa redoma inquebrantável. Era, desse modo, considerado pelos meus opositores, um reacionário, um reaça, na linguagem mais pejorativa de então. Em razão da visão deformada que tinha do universo, como consequência da falta de melhor apreensão no tocante às ideias e filosofias decisivamente influentes no processo de mudança da face e da estrutura social, tudo decorrente do influxo preconceituoso em que me via envolvido ao defrontar­-me com meus adversários, no embate inicial, quedei. Deu­s e quando, já estando aclamado presidente da União Maranhense dos Estudantes, graças ao apoio notadamente dos companheiros das faculdades católicas, recusei­-me a assinar, encabeçado por Maria Aragão, William Moreira Lima e outros, nos idos de 1961, um manifesto pugnando pela legalidade do Partido Comunista, então na clandestinidade. Esta minha atitude, que objetei reavaliar, contrariou a decisão tomada pela maioria de meus pares de representação universitária, restando­-me tão somente utilizar o expediente da renúncia, lição dolorosa e amarga, mas que me ensinou, daí por diante, a nunca mais capitular ou desistir de meus propósitos ou das minhas postulações e posições.

Enquanto assim, eu, em plena mocidade, ainda tateava os meandros das lides filosóficas e políticas, Ignacio de Mourão Rangel, ao se iniciar na Faculdade de Direito, já detinha consigo o cimentado básico de sua formação, do qual em nenhum instante abriu mão, ao longo da vida, muito embora dissabores profundos imprimissem em sua personalidade indeléveis marcas, que somente o ânimo ferrenho de crenças inabaláveis conseguiu ofuscar. Em casa, desde menino, do pai Lucas Rangel herdou a influência jurídica, aprendendo cedo as noções substanciais de direito e justiça, pois tudo levava crer ao ilustre desembargador que um dia seu filho o substituiria, com o mesmo brilhantismo, no elevado exercício da magistratura. Através do saudoso professor Antônio Lopes, seu grande orientador, penetrou pelo mundo comtiano, absorvendo a doutrina positivista do filósofo francês que, concebendo a sociedade através de um quadro organizado, situa­-se como precursor da moderna sociologia, em nível de estudo científico. Finalmente, bastou o destino lhe colocar nas mãos o Manifesto Comunista para que suas convicções adquirissem forma e conteúdo definitivos. Referindo-­se a esta circunstância, relata, de viva voz:

Um dia, Eline Mochel, minha colega e amiga, encontrou-se comigo e disse: ‘Tu vais para a cidade hoje? ‘. Eu respondi: ‘sim’. E ela continuou: ‘Então, entrega esse livrinho para aquele nosso amigo’. No bonde, abri o livro, que era o Manifesto Comunista, e li, li, li, li, até terminar, sem descer da condução. A partir daquele momento, eu senti que algo havia mudado. Quando eu entreguei o livro, já era outro, como se eu houvesse redescoberto o mundo.

A revolução de 1930 incitou os espíritos mais lúcidos deste país e o jovem Ignacio de Mourão Rangel não tergiversou na ocasião exata de extravasar seus sentimentos cívicos, fazendo­-se em armas ao participar, com a impetuosidade dos seus dezesseis anos, aliada aos aconselhamentos e lições do desembargador José Lucas Rangel, do assalto ao 24° Batalhão de Caçadores, de fuzil em punho. Este seu mais primevo ato público de bravura, já exibia a alma forte que nortearia sua conduta de homem de crenças arraigadas, porém equilibrado e sensato, a ponto de reexaminar posturas eventualmente extremas, mas nunca retroceder ou transigir naquilo que integrou a essência de seu pensamento, como político, economista e mestre.

A Faculdade de Direito, orgulho de todos quantos por ela passaram, certamente conduziu o autor de A inflação brasileira a uma reflexão cada vez mais consciente, na medida em que os tropeços e as decepções oriundas da ordem excepcional vigente no país e no Maranhão, se sucediam. Lamentavelmente as exacerbações da ditadura varguista enveredaram também pelo prédio da rua do Sol, legítimo reduto de homens e moços empenhados na pesquisa jurídica e na discussão de temas relativos aos direitos humanos e ao exercício da democracia, naquela altura combalida pela supremacia do autoritarismo. Ignacio Rangel, ao lado de outros, pertencia a essa militância e de tal maneira se sobressaía dentre os colegas, e merecia o respeito do corpo docente, que foi o alvo escolhido pelos fascistas, com a determinação de sua expulsão. O desiderato perpetrado, absurdo e revoltante, provocou o repúdio de Antônio Lopes, que despertou os brios da congregação daquela Escola Superior, animando­-a a permanecer resistente, negando, terminantemente, a torpe exigência dos donos do poder. Assim, sob pretextos não convincentes, mas fundamentalmente visando punir os que se opunham ao regime vigente, mormente aquele que, à sua época, era “a melhor cabeça” da mocidade – Ignacio de Mourão Rangel – foi fechada, em 1941, a antiga Faculdade de Direito do Maranhão, para reabrir, alguns anos mais tarde, sob os auspícios da recém­-criada Fundação Paulo Ramos, agora com o nome de Faculdade de Direito de São Luís.

Convém acentuar, na recapitulação de episódios igualmente marcantes, que o meu ilustre antecessor resignadamente suportou com altivez os mais atrozes constrangimentos pessoais e morais. Assim, em 1935, pagando tributo às suas opções políticas, ao integrar­-se à Revolta Comunista, foi preso e remetido para o Rio de Janeiro, ao lado de Joaquim Mochel, Fernando Perdigão, Clarindo Santiago e outros. Aqui, há uma passagem digna de destaque, reproduzida pelo próprio Ignacio de Mourão Rangel em entrevista que concedeu, em 1991, a Rossini Corrêa, Maureli Costa, Pedro Braga dos Santos e Raimundo Palhano, reportando-­se ao fato:

Minha mãe chorou e pediu que eu abandonasse tudo aquilo, pois não era obrigado a correr riscos, jovem como era. Meu pai disse: Absolutamente! Se me chegar em casa, tendo abandonado os seus amigos, eu lhe fecho as portas na cara. Se você quer mudar de opinião, espere lhe ser devolvida a liberdade; enquanto não lhe for devolvida, você não pode mudar de opinião.

Bem se vê, pela insofismável orientação do desembargador José Lucas Mourão Rangel, que o jovem de apenas vinte e um anos herdara do pai a personalidade forjada no sentimento da firmeza de princípios e na solidariedade humana, além de que, intelectualmente, já edificara, para sempre, o arcabouço de seu ideário, fruto das lições jurídicas e filosóficas de seus dois preceptores – O pai, Lucas Mourão Rangel e o mestre, Antônio Lopes – caldeados com as teorias do materialismo histórico de Karl Marx e Friedrich Engels. Na capital federal, para onde fora levado, a reclusão não se constituiu em motivo de abatimento ou intimidação, nem tampouco serviu para recuar em nada. Aproveitou o cárcere para mais ainda se desenvolver culturalmente, atirando­se integralmente ao estudo de Francês, Inglês, Italiano, Alemão, Economia, Sociologia, Matemática e muitos outros ramos do saber. Em 1937, já havendo retornado a São Luís, novamente a prisão. Primeiro na cadeia da praça de São João; depois exilado no restrito espaço físico da cidade, sem poder se deslocar para outros lugares, visto lhe terem sido apreendidos todos os papéis oficiais de identificação pessoal para, assim, mantê-­lo coagido. Uma autêntica cassação branca de seus direitos de cidadão.

Restou a Ignacio Rangel a busca de um trabalho para seu próprio sustento. Empregou­-se na firma Martins, Irmãos & Cia., onde fez o percurso oposto ao preferido pela maioria dos servidores. Após organizar completamente o setor administrativo da empresa, pediu para ser transferido para a fábrica. É que, devotado ao estudo da História e, portanto, compreendendo a importância da Revolução Industrial e seus desdobramentos sociais e econômicos, desejou ver de perto e acompanhar o funcionamento de uma unidade fabril, com o escopo de passar da teoria à prática e com mais convicção e segurança poder formar seu juízo próprio acerca das teses do proletariado. Ali trabalhou seis meses, o suficiente para adquirir embasamento que muito lhe serviu quando, anos mais tarde, por força de função que passou a exercer, dava pareceres em projetos industriais e pôde fazê-­lo com mais segurança, porque estavam alicerçados também na vivência que tivera.

A realização da primeira Conferência das Classes Produtoras – Conclap –, ou Conferência de Teresópolis, terminou ensejando a ida, em 1945, de Ignacio Rangel, para o Rio de Janeiro. Trabalhando ainda na fábrica da empresa Martins, Irmãos & Cia., viu nos jornais a programação daquele evento. Não teve dúvidas: endereçou uma carta à Associação Comercial do Maranhão, aos cuidados de Alfredo Benna, diretor do Departamento Técnico da entidade, sugerindo o engajamento do empresariado local. Aliados inseparáveis – Paulo Martins de Souza Ramos, interventor, e a Associação Comercial do Maranhão – já haviam antes decidido, sem explicações plausíveis, pela omissão ou ausência de qualquer representação estadual no aludido conclave. No entanto, lido em plena reunião de Diretoria, o conteúdo do expediente surtiu efeito a ponto de ter sido reconsiderado o compromisso da Casa com o governo. Teses prontas para a viagem, delegação composta, e nela incluído o próprio Rangel, que se viu compelido a protelar sua inserção pessoal na comitiva, para não revelar que, por falta de documentos, estaria impossibilitado de sair de São Luís. Salvou­-o o velho camarada Fernando Perdigão, seu companheiro de cela em 1935, a esta altura ocupando cargo de destaque na administração Paulo Ramos e com influência suficiente para devolver-­lhe a indispensável carteira de identidade e demais documentos necessários a sua partida.

Quiseram os desígnios que meu antecessor desembarcasse tardiamente no Rio de Janeiro, tantos foram os entraves com que se deparou, inclusive, para culminar, a verificação de uma pane na aeronave em que viajara. Desse modo, ao chegar à Cidade Maravilhosa, a representação maranhense já havia seguido para Teresópolis, deixando para trás, desfalcado de qualquer sinalização de como prosseguir, aquele que foi o seu maior incentivador. Ocorre que, sem que ele mesmo percebesse, seu destino final, seu porto de ancoragem terminante era mesmo o Rio de Janeiro. Já estava traçado. Não dependeu de sua vontade. Aquela permanência que seria transitória, na defesa de uma visão larga acerca das transformações que começavam a se operar no Brasil, conforme consta da carta enviada a Alfredo Benna, e que iria defender em Teresópolis para depois regressar à província, de repente converteu-­se em mudança radical de sua vida presente e futura.

Na capital da República, enquanto aguardava a ocasião de um emprego duradouro ou constante, aplicou seus conhecimentos de poliglota, efetuando traduções principalmente das novelas policiais muito em voga, a exemplo de X­9, Meia­-Noite e congêneres. O domínio perfeito de vários idiomas propiciou-­lhe o ganha­-pão do dia ­a­dia, além de que o credenciou perante editoras e agências de noticias, havendo prestado serviço às mais prestigiosas de então, como a United Press, a Associated Press, a France Press, a Reuters e similares. Assim, por muitos anos Ignacio Rangel – e pouca gente sabe disso – foi, na prática, o redator do Repórter Esso, levado ao ar, naquela época, por Heron Domingues. O fato de manusear e verter para a língua pátria todos os textos que forçosamente caíam-­lhe às mãos, dava-­lhe a condição excepcional de cientificar­-se, antes de ninguém, dos episódios e dos comentários sobre todos os assuntos, do mundo inteiro. À empresa, jornal ou rádio, cabia efetuar a triagem, liberando apenas o conveniente. Porém ele, Rangel, por força do ofício, tudo apreciava, beneficiando­-se das informações em geral, tanto das que iam a público como das censuradas. Esta circunstância lhe permitia um juízo melhor dos reflexos que os inúmeros incidentes sobrevindos poderiam produzir no Brasil e nos demais países circunscritos aos respectivos reflexos. Inteligentemente, valia­-se desse privilégio para externar, quando passível, através de artigos que conseguia publicar, seu ponto de vista, às vezes em discordância com o dominante, mas tão bem elaborado, que pouco falhava. Daí o apelido de O Profeta que recebeu de colegas e companheiros mais chegados.

Homem destemeroso quanto à aspiração de tornar realidade seus sonhos, Ignacio Rangel conciliou os deveres assumidos com a dedicação ao estudo e à leitura sobre Economia e História, duas ciências que entendeu serem afins ou complementares. Desse modo, didaticamente dividia o tempo disponível, reservando ainda parte dele para começar a sistematizar suas ideias, grafando-­as no papel com a maior frequência possível. Escrevia o máximo que podia com esse objetivo, e guardava. Até que, por volta de 1947, chega a sua casa o amigo fraterno Gilberto Paim e o flagra na faina habitual de sua intimidade, redigindo mais um artigo, do qual ele era, ao mesmo tempo, autor e único leitor. Passando os olhos sobre o material, Paim carregou consigo, depois de selecionar, cinco textos. Semanas depois regressou com dois mil e quinhentos cruzeiros, fruto da venda que efetuara, à Associação Comercial do Rio de Janeiro, dos aludidos trabalhos. Foi o primeiro dinheiro que ganhou, como economista, sem sê­lo ainda, de direito.

Bem a propósito dessa personalidade que gozou da familiaridade do autor de A inflação brasileira, chegou às minhas mãos um trabalho do mesmo Gilberto Paim, apresentado no I Simpósio Nacional, denominado O pensamento de Ignacio Rangel, realizado em Florianópolis, sob patrocínio da Universidade Federal de Santa Catarina, no período de 15 a 17 de agosto passado. Por absoluta falta de informação acerca do evento, a ele não me fiz presente, pois meu desejo, e até mesmo minha obrigação, seria estar ali, para escutar, aprender e agora poder transmitir­-vos melhor sobre a trajetória desse homem que, mais destacadamente no campo da economia brasileira, como raros, engrandeceu e honrou tanto o Maranhão.

A biografia de Ignacio de Mourão Rangel é longa em todos os aspectos. Para entendê-­la de modo perfeito, não basta somente o relato de sua vida como cidadão. Obviamente de idêntica valia é a obra que nos legou, através de livros, monografias, apontamentos, ensaios, artigos e palestras, de excelente qualidade e em número expressivo. Aqui é onde verdadeiramente pode ser encontrado todo o pensamento do economista, do escritor, do político, do historiador, do conferencista e do mestre que se fez respeitado e acolhido por quantos tiveram o privilégio de conhecê-­lo. Impossibilitado de referir a toda a sua produção intelectual, torna­-se imperativo mencionar pelo menos dois títulos clássicos de sua autoria: A dualidade básica da economia brasileira e A inflação brasileira. Empregando vocabulário singelo, dentro das minhas limitações, e seguindo os seus próprios passos, ao tornar acessível aos leigos o conteúdo de suas teses, através de uma linguagem simples, à margem das expressões técnicas, permito­-me, assim, efetuar discreto arrazoado acerca das obras referenciadas.

A dualidade básica da economia brasileira, livro editado em

1957, é uma tese de história econômica e política do Brasil. Trata-­se do principal elemento organizador do pensamento de Ignacio Rangel. Corresponde a uma original adaptação do materialismo histórico e da teoria econômica para análise do caso brasileiro. Sem entendê­-la é impossível captar os fundamentos básicos das interpretações do autor sobre os demais temas de que se ocupou, ou seja, o processo de industrialização, o surgimento de crises, o planejamento, a questão agrária, a inflação e, finalmente, a problemática global da revolução brasileira. Nela está presente e salientada a investigação das nossas peculiaridades. E é o próprio Rangel, à guisa de prefácio, inserto no compêndio, que explica:meus estudos levaram-me à conclusão de que nossa peculiaridade por excelência é a dualidade, no sentido que atribuo a esse termo, isto é, o fato de que todos os nossos institutos, todas as nossas categorias. – o latifúndio, a indústria, o comercio, o capital, o trabalho e nossa própria economia nacional – são mistas, têm dupla natureza, e se nos afiguram coisas diversas, se vistas do interior ou do exterior, respectivamente. E continua:

A tarefa consiste em examinar, na própria vida, como esses aspectos reagem um sobre o outro; como essas construções dúplices se comportam umas frente às outras no complexo que é a economia nacional; e como esta se comporta em suas relações igualmente dúplices com o estrangeiro, pois confrontam formações heteronômicas.

A proposta, em face de tais premissas levantadas, é determinar as leis desse procedimento ou dessa conduta, segundo afirma o notável economista.

A inflação brasileira, o trabalho mais divulgado de Ignacio de Mourão Rangel, editado inicialmente em 1963, já alcançou numerosas reedições. Embora voltada para um determinado momento histórico, a obra transcende seu caráter de ocasião, e adquire forma e conteúdo de uma teoria, pelo seu elevado grau de universalidade. Não obstante, o diagnóstico da inflação brasileira está relacionado com a estrutura de distribuição de renda e, portanto, revela­-se em uma inflação de custos ou administrada e não de demanda. De forma pioneira, ao alicerçar seu firme ideário, claramente utiliza e integra os conceitos de macroeconomia keynesiana e marxista, ao ligar a taxa de exploração com a relação investimento-consumo, ou, em outras palavras, ao demonstrar que o consumo depende de salários e o investimento de lucro. E prossegue o teórico, em sua explanação, até, finalmente, oferecer diretrizes com vistas ao controle do processo inflacionário.

Caríssimos Confrades, senhoras e senhores, sem querer, porém movido pelo entusiasmo derivado de um tema tão atual como a inflação, já me ia desviando da sequência que venho procurando imprimir nesta breve homenagem que presto ao meu antecessor na Cadeira 26, desta Academia. Militou ele no Partido Comunista durante dezesseis anos, isto é, de 1931 a 1947. Na Célula Theodore Dreiser, que se reunia na avenida Rio Branco nº. 275, no Rio de Janeiro, debateu amplamente a adaptação das doutrinas marxistas à realidade brasileira. Jamais imaginou necessária a tomada do poder pela classe operária, como condição indispensável ao progresso de nosso país. A expropriação da terra e sua distribuição aos trabalhadores rurais eram o lema principal do Partido e um dos instrumentos preferenciais da agitação política. De seu lado, acreditava Rangel que a transformação da economia brasileira, predominantemente agrária, em economia industrial, poderia ser conduzida pelo Estado. Em outras palavras, entendia ser possível a industrialização brasileira sem execução da reforma agrária, ponto de vista traduzido em agressão desmedida aos consagrados preceitos pelo partido Comunista Soviético aos partidos “irmãos” do mundo subdesenvolvido. Aos poucos, o espaço de Rangel foi-­se estreitando, em razão das teses heréticas que defendia e na recusa em acatar ordens superiores no sentido de retornar a São Luís, onde deveria permanecer como funcionário do Partido, obediente à sua direção nacional. Não lhe restou outra alternativa, a não ser o desligamento, sem que este fato significasse a abominação aos ensinamentos de Marx.

Por causa de um projeto de industrialização do babaçu, através de Rômulo de Almeida, com quem fez amizade, foi convidado para trabalhar no governo Vargas. A princípio recusou o convite, afirmando, francamente, ao amigo: “não é razoável, eu faço oposição ao presidente há quase vinte anos”. Mas Getúlio insistiu e na entrevista que tiveram, disse-­lhe o chefe da nação: “Dr. Rangel, eu conheço seu currículo, não o chamei por engano, mas porque quero ter comigo pessoas que tenham coragem de dizer que estou errado, e o senhor é um destes homens”. Diante de argumentos tão convincentes, restou-­lhe apenas desligar­-se da United Press, a que se achava vinculado, e integrar o governo Vargas, havendo escrito as quatro leis da Eletrobrás e colaborado na criação da Petrobrás.

Conta­-nos Gilberto Paim que, quando Juscelino Kubitschek de Oliveira chegou à Presidência da República, Rangel já pertencia ao quadro do então Bnde, como chefe do Departamento Econômico, passando a exercer papel relevante na elaboração e execução do Plano de Metas, circunstância que se lhe ofereceu para colocar em prática sua tese da imprescindibilidade do Estado na condução do processo de industrialização. O seu ingresso no Banco dera­-se por concurso, não obstante antes, em caráter de interinidade, ter iniciado, naquele estabelecimento de crédito, suas atividades. E logo fora convidado, por recomendação do presidente Vargas, para especializar­-se em planejamento, na Cepal – Comissão Econômica para a América Latina, em Santiago do Chile. Ao tomar contato com a programação do curso, viu que aquilo pouco ou nada adiantava em nível de aproveitamento à realidade brasileira. Com a autenticidade que lhe era própria, logo protestou: “Vim de um país que tem outros problemas. Não há possibilidade alguma de se planejar a economia brasileira com esse critério, pois o Brasil precisa é de quem saiba fazer projetos”. Tal conduta gerou uma luta, uma rebelião contra a orientação oficial. E acrescenta o autor de Ciclo, tecnologia e crescimento: “Mas eles acabaram achando que eu tinha razão e fizeram uma revisão, um curso especial para análises de projetos, que serviu de base para todos os cursos da CEPAL que vieram depois em toda a América Latina”. Estava ainda na capital chilena quando do suicídio de Getúlio Vargas e sobre esta figura quase mítica da história nacional, assim se referiu:

Sinto-me na obrigação de dizer que durante muitos anos trabalhei para o presidente, mas era um opositor. O meu neogetulismo começa hoje, porque eu fui getulista em 1930, quando ele foi meu comandante, mas isso faz muito tempo; depois estive contra, fui preso etc., e agora eu começo a perceber o getulismo, porque seu suicídio significava que ele levava a sério aquilo que me mandava fazer. Portanto, eu levo a sério, eu agora me declaro getulista, e podem ter certeza de que milhões de brasileiros estão, neste momento, tomando a mesma decisão.

Vale a pena recordar um incidente relacionado com o ingresso de Ignacio Rangel no Bnde, segundo também nos assevera Paim. No momento de sua admissão efetiva, após ter prestado exame de provas, o então superintendente Roberto Campos recebeu do Dops a ficha do empossando, qualificando-­o de comunista e inimigo da ordem social. Imediatamente o memorialista de A lanterna na popa dá um despacho segundo o qual opina que não se deve usar contra candidatos inteligentes os critérios policiais de julgamento ideológico das pessoas. Tais critérios, segundo ele, só deveriam ser aplicados a candidatos burros.

Paralelamente às suas atividades cotidianas, Ignacio Rangel sobressai­-se como professor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – Iseb, recém­-criado por Juscelino Kubitscheck, atendendo solicitações de Roland Corbisier e outros técnicos do desenvolvimento econômico brasileiro. Foi exatamente nesse ambiente que ele se agigantou nos lineamentos concebidos sobre a dualidade básica, de que já vos falei. Através das aulas que lecionava, o invulgar economista maranhense, já àquela época pressentia serem a pequena e a média empresas organismos fecundos para a geração de empregos e capacitação empresarial. É, no mínimo curiosa a coincidência ocorrida em 1964, no governo Castello Branco, quando foi criado, no próprio Bnde, onde o meu predecessor trabalhava, o Fundo de Financiamento da Pequena e Média Empresa – Fipeme.

E por aí vai toda uma extensa e fecunda produção de Ignacio de Mourão Rangel, tesouro objeto de pesquisa e interpretação, pois a cada momento mais uma riqueza se descobre da lucidez de seu espírito e da sua construção ideológica. No afã de tudo trazer à tona, senhoras e senhores, invadiríamos a noite, como já estamos fazendo, para nos entregar talvez por longos anos, quem sabe pelos mesmos oitenta anos que viveu Rangel, na apreciação de uma obra incomum e de um homem excepcional, do qual o Maranhão se enobrece em tê-­lo como filho e que a Casa de Antônio Lobo, em boa hora, porque não dizer, quase na última hora, resolveu trazê-­lo para abrilhantar sua galeria de imortais.

Contudo, perdoai­-me se mais preciso gastar vosso precioso tempo. Ao assim proceder, cumpro o dever junto a vós que me ouvis e perante a posteridade para quem também me dirijo, pela própria natureza desta Casa, de proclamar, entre entusiasmado e emocionado, que Ignacio de Mourão Rangel, por tudo o que foi e realizou, conquistou a posição cimeira dentre tantas personalidades com quem conviveu. Ele é um facho de luz perene a clarear o horizonte de seus conterrâneos e compatriotas, em todos os momentos dessa caminhada do Brasil, na busca da felicidade de seu povo. Aos questionamentos da Revolução militar de 1964, respondeu-­os, sem exceção, com garbo, altivez e serenidade, mesmo sentindo fisicamente o coração a pregar-­lhe os primeiros abalos a sua saúde. Vinte e um anos depois, pela reabertura democrática delineada sob os auspícios da eleição de Tancredo Neves, elaborou e publicou uma Carta Aberta aos Economistas, aos de direita e aos de esquerda, representados, respectivamente, por Roberto Campos e Conceição Tavares. Nela reitera seus dogmas marxistas, mas coloca-­se acima de preconceitos ideológicos e, usando uma figura de retórica, para resumir seu sentimento, afirma que a nação, naquele instante, estava necessitando de ambas as suas mãos, a da direita e a da esquerda. Por isso dirigia-se, em particular, àqueles dois colegas, os mais lídimos símbolos das correntes extremas na militância do equacionamento econômico do Brasil. No último parágrafo do documento, antevendo que desencontros danosos para sociedade poderiam ser de difícil reversibilidade, assim se expressa:

Embora o nosso velho presidente seja um velho teimoso, teremos que fazê-lo mudar de ideia. Ainda que seja provando-lhe que, sem o pleno emprego do potencial produtivo já criado, a inflação se torna fatal.

E abaixo da assinatura, com data de 22 de março de 1985, vem um post­-scriptum.

Presidente Tancredo Neves: O País carece de trabalhar com ambas as suas mãos que, para os fins que aqui nos ocupam, devem ser as mãos de V. Exa. Como um só homem, como também se diz. A maturidade de que a Nação fez prova no incidente da investidura do governo de V. Exa. deve ser posta em evidência, uma e muitas vezes. E ambas as mãos serão necessárias.

Ignacio de Mourão Rangel, mesmo acumulando decepções com o governo Collor e o desmoronamento da União Soviética, prosseguiu combativo e respeitado, até que, por fim, naquele 4 de março último, foi acolhido em caráter definitivo, na imortalidade, pois a chama perene de sua lucidez, a luz brilhante de seu espírito e o traço contínuo e retilíneo de seu caráter coerente haverão de se manter acesos eternamente, tal um farol que, nas noites de lua cheia e céu estrelado, ou de escuridão e tempestade, com o mar calmo ou revolto, se sustenta eternamente, alumiado, vivo, orientando os viajeiros contra as surpresas e os perigos, a fim de que prossigam, seguros, na sua jornada. Os dias, os anos, as décadas e os séculos se consumirão na incomensurabilidade do tempo, mas ficará imortalizado pelo que fez e como fez ou até mais pelo que explicitamente desejou realizar e não conseguiu, esta personalidade distinta da intelectualidade brasileira a quem sucedo, neste cenáculo, sob o peso de tão grande responsabilidade.

Não conheci pessoalmente, salvo no dia de sua posse nesta Academia, acontecida em 29 de novembro de 1991, o autor de El desarollo económico en Brasil. Assim, sem ter tido o privilégio de privar, quando ainda vivo, dessa beleza inteira de homem, experimentei­-o quando ele, ao abraçar a imortalidade, entre choros e saudades dos seus, passou a pertencer a todos nós e a mim também. Graças a essa excepcionalidade, senhoras e senhores, eu vos posso exibir algo que, em menos de cinco meses, nas oportunidades do meu entrecortado tempo, consegui amealhar, para também vos contar do que me foi possível haurir do legado imorredouro de Rangel, que se confunde com ele mesmo. Livros, revistas, artigos, depoimentos, comentários, estudos, planos e projetos transitaram por minhas mãos e deles as pupilas dos meus olhos transportaram para o meu cérebro o inesgotável acervo a que me referi e com o qual, se não criei um elevado grau de intimidade, constituí uma enriquecedora aproximação com o meu antecessor.

Ainda assim, sem incorrer em exageros ou equívocos, mas como resultado dessa aproximação, assevero-­vos que Ignacio de Mourão Rangel, como pensador independente e original, galgou o reconhecimento unânime de ter se tornado um dos mais respeitados intérpretes da economia brasileira.

Faltam­me, talvez por isso, palavras para sintetizar o meu aprendizado, razão por que recorro a uma feliz análise do festejado economista Raimundo Palhano, publicada na Revista Fipes, edição especial dedicada a Ignacio de Mourão Rangel, publicada em 1989. Diz o ilustre professor da Universidade Federal do Maranhão, em admirável síntese:

Quem se aproxima de sua obra começa a perceber que em Ignacio habitam vários Rangéis.

Há o Rangel intérprete da economia brasileira. Seu lado mais conhecido. Dono de uma obra monumental, original e inovadora. Há o Rangel pensador. O criador original, o pioneiro. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. Que, de repente, se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira atribui-lhe a classificação de ‘pensador independente’. São evidências dessa faceta: a tese da dualidade, a teoria da inflação, e outras.

Há o Rangel erudito. Suas análises, quase sempre, vêm recheadas de erudição histórica, fina ironia, ricas metáforas, que, em conjunto, imprimem ao seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. Há o Rangel militante. Tanto aquele que optou pela militância intelectual como forma de atuação como militante político, autêntico e destemido. Há ainda o Rangel missionário. O Rangel conselheiro. O Rangel profeta. Nesse particular, aliás, ele tem se caracterizado como um analista que se houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira.

Há, também, um Rangel muito especial do qual Ignacio se orgulha muito. O Rangel funcionário público. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas, preferindo semear na planície. O cidadão que soube dizer sim quando era para dizer, e disse não, quando foi preciso.

Igualmente, dentre inúmeros outros comentários elogiosos, expendidos pela melhor plêiade de economistas nacionais, lamentando o passamento do singular maranhense, chamou-­me a atenção o de Maria do Rosário Rodrigues Pizzo:

Tenho que falar de Rangel como economista, professor, mas também como pai, pois ele dizia sempre que eu era sua filha. Nesta condição, o que me deixou foram as lembranças do Maranhão, de sua vida revolucionária, dos anos de prisão, de uma riquíssima vida profissional, do seu amor pela poesia. Me encantava a sua paixão pela sua mulher Aliete.

Com este último depoimento, senhoras e senhores, depois de vos haver longamente ocupado, peço desculpas pela minha insistência, em ter de prender­-vos por mais alguns minutos, para que eu possa concluir a homenagem que me cumpre e me deleita prestar ao homem que foi buscar nos versos dos poemas e dos sonetos o bálsamo para aliviar suas inquietações. Ao homem que amou apaixonadamente sua mulher, desde os tempos de namoro quando, postado na rua do Sol, esquina com a do Egito, em frente à farmácia Sanitária, mantinha-­se atento à professora normalista, funcionária do Departamento de Estatística, que quotidianamente passava para o trabalho, no prédio onde é hoje o Tribunal de Contas do Estado. Esta extraordinária mulher, que conheci já solitária em seu apartamento do Rio de Janeiro, foi quem lhe deu ânimo, forças e motivação, inclusive influindo decisivamente para que ele, no Rio de Janeiro, desse sequência ao curso de Direito, interrompido em São Luís, ocasião em que se bacharelou com a tese Penitenciária e Mulheres de Bangu. Casaram-­se na Igreja de Santana, desta capital, e assim permaneceram durante cinquenta e três curtos anos, no aconchego e no carinho, ao lado dos filhos Lucas, Ludmila e Alberto. Sempre solidária ao marido, nos momentos mais difíceis, ajudava-­o em seu mister, mesmo em casa, e administrava o lar e geria as finanças da família. Com a inflação ainda alta, quando do banco onde depositavam suas economias, telefonavam para receber orientação sobre aplicação dos recursos, ele respondia: minha mulher não está, é ela quem resolve. E Rangel, o eterno apaixonado pela companheira que foi sempre a outra banda do seu ser, costumava dizer­-lhe, repetidamente, anos após anos, e reafirmando os galanteios dos tempos de namoro: “eu ainda vou casar com essa dona”. Casar de novo, queria dizer, casar a cada momento, a cada instante com ela, com Aliete, que me honra com sua presença nesta noite, seu encanto e sua musa inspiradora. Inspiradora também das inúmeras poesias que escreveu, muitas a ela dirigidas, no gesto de renovação constante de seu amor eterno.

Surpreendeu­-me, confesso­-vos, esta outra faceta de Ignacio de Mourão Rangel, que pude constatar pessoalmente, ao analisar a composição de sua biblioteca e ali, escutando dona Aliete contar-­me do prazer que ele tinha de ouvir músicas clássicas e cânticos gregorianos, quando estava escrevendo, deparei­-me com uma coleção de livros de poesias de autores como Fagundes Varela, Gonçalves Dias, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Baudelaire, Verlaine, Mallarmé e tantos outros que não consegui reter na memória. E aí tomei conhecimento de que por horas a fio ele se perdia na leitura e na apreciação desse outro gênero literário, com o qual durante a vida inteira alimentou o espírito, propiciando-­lhe a leveza refletida no seu semblante de paz.

Senhor Mário Meireles, peço desculpas se não consegui desincumbir­-me, a contento, do vosso aconselhamento, naquele fim de tarde, de que deveria, nesta oportunidade, fazer resplandecer, com o brilho mais forte que o das luzes que clareiam e engalanam esta solenidade, a estrela de primeira grandeza que foi e continua sendo Ignacio de Mourão Rangel.

Senhores acadêmicos, desejo testemunhar o meu incontido orgulho de pertencer a este cenáculo. Contrariando a tradição desta terra, nunca fui poeta, nem quando o ardor juvenil impulsionava minhas emoções. Chego com minha prosa simples e despretensiosa, para ser enriquecida em vosso convívio. Mas chego, também, com as minhas duas mãos, a direita e a esquerda, parafraseando o imortal Ignacio de Mourão Rangel, para juntar às vossas, na obra permanente e imorredoura de preservação e difusão da cultura maranhense.

Senhoras e senhores, obrigado por terdes vindo. Obrigado pela paciência com que me escutastes.

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