Perfil do Acadêmico

Cadeira 13

Benedito Bogéa Buzar

Naturalidade:

Itapecuru - MA

Data de Nascimento:

17 de fevereiro de 1938

  • Antecedido por:

    Recepcionado por:

    Mílson Coutinho

  • Data de Eleição

    02 de agosto de 1990

    Data de Posse

    10 de agosto de 1990

Biografia

Nasceu em Itapecuru-MA, a 17 de fevereiro de 1938. Filho de Abdala Buzar Netto e Deonila Bogéa Buzar. Após cursar em São Luís o Colégio Maranhense, dos Irmãos Maristas, e o Colégio Estadual do Maranhão (Liceu), ingressou na Faculdade de Direito do Maranhão, pela qual é bacharel.

Jornalista, advogado, professor, pesquisador.

Manteve, no Jornal do Dia, a coluna diária Roda Viva, que assinava sob o pseudônimo de J. Amparo, e que foi, em seu tempo, a mais prestigiosa de São Luís. Atualmente voltou a escrever, sob seu próprio nome no suplemento Alternativo, do jornal colaborador dos jornais O Imparcial, O Jornal, Jornal do Dia, O Debate, O Estado do Maranhão, e das revistas Garota de São Luís, Projeção. Impacto e Legenda, da qual também foi secretário.

Suas atividades jornalísticas compreenderam, ainda, a produção e apresentação do programa Maré Alta, que manteve na TV Ribamar.

Deputado à Assembleia Legislativa do Maranhão, Benedito Buzar teve seu mandato cassado em 1964.

Professor titular de Ciência Política do Curso de Administração Pública da UEMA; membro e depois presidente do Conselho Estadual de Cultura; chefe da Divisão de Assuntos Internos, da Divisão de Planejamento, da Assessoria Técnica e de Gabinete da Sudema; subchefe do Departamento de Estudos Jurídicos e Sociais da Escola de Administração Pública da UEMA; assessor de Comunicação do Senai, Sesi e Fiema; advogado do Escritório Técnico de Administração Municipal; chefe de gabinete da Prefeitura de São Luís; secretário municipal de Educação e Cultura de São Luís; coordenador geral da Secretaria da Cultura do Maranhão; diretor-presidente da Maratur; secretário de Estado da Cultura; diretor-presidente do Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado; assessor do Sebrae-MA; gerente de Articulação e Desenvolvimento da Região do Itapecuru.

Autor de diversas memórias históricas, duas das quais foram premiadas pelo Concurso Artístico e Literário Cidade de São Luís: Do Sarneysmo ao Vitorínismoe Eleição de Chateaubriand no Maranhão.

De suas numerosas pesquisas, Benedito Buzar publicou Agreve de 51; os trinta e quatro dias que abalaram São Luís. São Luís: Editora Alcântara, 1983; Fiema: vinte anos de lutas e vitórias. São Luís: 1988; 50 anos de Banco do Estado do Maranhão. São Luís: 1989; Politiqueiros, politicalha, politiquice, politicagem e política do Maranhão. São Luís: Sioge. 1989; 100 anos de telefonia no Maranhão. São Luís: 1991, O vitorinismo; lutas políticas no Maranhão (1945 a 1965). São Luís: Lithograf, 1998 (2a e 3a ed., 1998; 4a ed., 1999); Vitorínistas e oposicionistas. São Luís: Lithograf, 2001; Neiva Moreira: o jornalista do povo, São Luís; Lithograf, 1997: 50 Anos da Greve de 51. São Luís, Lithograf, 2001.

Agraciado com as medalhas: do Mérito Timbira; João Lisboa do Mérito Cultural e da Ordem dos Timbiras, no grau de grande oficial; do Mérito Judiciário Desembargador Antônio Rodrigues Vellozo; Simão Estácio da Silveira, da Câmara Municipal de São Luís; do Mérito Mauá do Ministério dos Transportes.

Tesoureiro da Academia Maranhense de Letras, instituição que representou no Conselho Universitário da Universidade Federal do Maranhão, no Conselho Administrativo da Fundação Cultural do Maranhão e no Conselho Editorial da Uniceuma.

Eleito vice-presidente na Diretoria do biênio 2010-12, assumiu a Presidência em 17.3.2011, por vacância desta. Eleito para o biênio 2012-14 e reeleito para o biênio 2014-16.

Bibliografia

Discurso de Posse

A história propriamente dita da Cadeira 13 começa na noite de 11 de janeiro de 1919, com a posse de seu fundador, o médico escritor e jornalista José de Almeida Nunes, recebido, em nome da Academia, pelo contista e também jornalista Domingos Barbosa.

A Academia, fundada na data de hoje, em 1908, ultrapassara seus primeiros dez anos de vida sob o impacto de uma grave advertência: a de que, para renovar as energias tão precocemente combalidas, para superar o desânimo causado pelas mortes de Costa Gomes, Astolfo Marques, Maranhão Sobrinho e Antônio Lobo, o último, alma e líder de todos os movimentos culturais da São Luís de seu tempo, precisava se colocar acima das contingências da falibilidade humana.

Em nome de compromissos com a permanência, e seguindo uma linha de equilíbrio entre o culto às tradições e a constante renovação que dá vida e atualidade a essas mesmas tradições, a Academia lançou para longe de si a apatia generalizada que a mantinha em estado de existência virtual, e se impôs a tarefa da ação vivificadora.

É dessa fase de renascimento, de ressurreição e a reafirmação dos irrenunciáveis compromissos com o passado, com o presente e com o futuro, que são meras divisões esquemáticas de um conjunto indiviso, o efetivo nascimento da Cadeira 13. Dela hoje me faço titular, nesta cerimônia em que o presente é ponte para o futuro e também ligação com o passado, que se estende para além da Academia, porque funda suas raízes nas origens mais verdadeiramente nossas, do gosto pelas letras e da vocação para a vida literária.

Grande alegria, Senhores Acadêmicos, é me haverdes trazido até aqui, para ser um de vós, sob o honroso patronato de um educador nascido em meu Itapecuru-Mirim natal, e que foi, acima de tudo, um dos maiores homem de imprensa de nossa terra.

Fundador do Farol Maranhense, o primeiro órgão liberal que aqui circulou, e um dos mais vibrantes, entre todos os jornais maranhenses, o patrono da Cadeira 13 de tal modo se identificou com a causa da liberdade, sua bandeira de luta e sua paixão maior, que a ela consagrou o brilho de sua inteligência, as luzes de seu saber e a juventude em flor na qual morreu, perseguido pelos poderosos, mas amado por seu povo, que lhe guardou o exemplo e lhe reconheceu a coragem cívica, dando-lhe um cognome que vale pela mais clara explicação: o Farol, epíteto que brilhou sobre ele, e com luz tão intensa, que se transferiu para as irmãs que lhe sobreviveram, pois que todas ficaram conhecidas na Cidade como “As Faróis”, o que confirma, duplamente, o celebrado verso de Camões: Transforma-se o amador na coisa amada.

José Cândido de Moraes e Silva, o patrono da Cadeira 13, é uma daquelas figuras que, no alvorecer da vida nacional brasileira formaram, aqui no Maranhão, o núcleo irradiador do verdadeiro sentimento de nosso povo, fundado nos ideais da liberdade, na aspiração de construir uma pátria soberana e no sonho de combater, sem desfalecimento, todas as formas de opressão.

Permiti-me um breve painel de natureza biográfica, para dizer-vos que José Cândido, ainda criança, mudou-se, com a família, do sítio Juçara, em Itapecuru-Mirim, para São Luís. Aqui, no curto espaço de treze meses e treze dias, a morte de seus pais o lançou na orfandade, mal completara 10 anos. Acolhido por um abastado comerciante português, Comendador Antonio José Meireles, José Cândido continuou estudando e, em princípios de 1818, seguiu para a França. Ia preparar-se, em colégios de Havre para ser um negociante ilustrado, conforme expresso desejo de seu protetor. Mas a viva, precoce e evidente inteligência daquele menino mudou o projeto inicial do Comendador Meireles, que resolveu transferir seu protegido para Coimbra, em cuja Universidade iniciou-se no curso de Medicina.

Entretanto, a efervescência nacionalista que então dominava o Brasil, e que resultou na proclamação de 7 de setembro, não poderia deixar indiferente o ardoroso patriota que era José Cândido. Principalmente por ser o Maranhão um dos pólos da reação colonial que lutava para mantê-lo subordinado à antiga metrópole.

O futuro médico, trocando e truncando um destino previsível de posição destacada e cômoda, resolveu aventurar-se na luta em favor da causa brasileira, disse adeus a Coimbra e tomou o caminho de dezenas de outros jovens seus compatriotas.

Com a certeza de que ninguém se perde nos caminhos de volta à terra natal, aqui chegou em setembro de 1823, e por algum tempo foi apenas um atento observador da exaltação de ânimos que sacudia o Maranhão. Certamente por gratidão ao seu protetor, um dos mais ativos e destacados líderes da reação lusitana, José Cândido fez de tudo para não ser atraído ao centro dos acontecimentos. Tanto é isso verdade, que inicialmente residiu em casa do Comendador Meireles e trabalhou em seu estabelecimento comercial. Mas o confronto de idéias inconciliáveis, cedo atingiu a saturação.

Por isso, fez-se de volta a Itapecuru-Mirim, e ali, na localidade Palmeira Torta, próximo de onde nascera, dedicou-se à agricultura, empenhado em prover o próprio sustento e disposto a contribuir, com seu trabalho, para o desenvolvimento econômico do nascente Império do Brasil.

Mas a morte do avô, com quem viviam as irmãs de José Cândido, fê-lo tomar a si, aos 19 anos de idade, o grave encargo de chefe de família. E também levou à resolução de instalar-se em São Luís, onde passou a trabalhar no magistério. Em sua casa abriu aulas de francês e geografia, e depois, um internato, no qual estudaram diversos alunos que viriam a ser ilustres personalidades do Maranhão imperial. Além disso, lecionava em domicílio e no quartel do Exército, para cadetes.

O verdadeiro José Cândido, entretanto, ainda não se revelara.

José Cândido de Moraes e Silva, principalmente destinado ao comércio, depois encaminhado, sucessivamente, à medicina, à agricultura e ao magistério, era, na verdade, uma autêntica vocação de homem público, um patriota de ânimo inquebrantável, um liberal arregimentado contra todas as modalidades de opressão, de desvios da lei e de atentados à liberdade.

E como expressão natural e direta desses excelsos atributos morais, lançou-se à aventura da criação de um jornal, o Farol Maranhense, cujo primeiro número circulou a 27 de setembro de 1827. Na apresentação, em que traçou o programa de seu jornal, disse José Cândido:

Eis-nos a escrever para o público: conhecemos quão árdua é a tarefa que sobre nós tomamos, contudo, como amamos sinceramente o nosso país, faremos a ele todo o sacrifício possível, sem importar-nos que sobre nós recaia o rancor de alguém ou o ódio de muitos.

Mais adiante, estas palavras candentes, e que tem, nos dias de hoje, impressionante atualidade e perfeita aplicação:

Falaremos com aquela franqueza própria a cidadãos livres, sem medo de expormos com coragem nossas opiniões, e de combatermos, quanto em nossas forças couber, os excessos contra a Constituição, a liberdade, a segurança individual, e a propriedade dos cidadãos brasileiros. Apontaremos as infrações da lei e da Constituição, cometidas pelos empregados públicos, qualquer que seja o lugar que ocupem: e bem assim referiremos tudo quanto nos parecer concernente ao bom andamento dos negócios do nosso país.

Na eleição de 16 de maio de 1828, em artigo intitulado Liberdade, observava:

Nenhum membro da sociedade pode ser privado da sua liberdade, sem que esta privação seja considerada como um ataque formal aos direitos mais sagrados e mais caros da maioria,

verdade essa que se mantém plenamente vigente até hoje, na linha do que melhor se entende por democracia.

Por essa coragem cívica, por esse arrojo que é um dos exemplos mais edificantes e comovedores da história das lutas libertárias do Maranhão, José Cândido pagaria muito caro. Apesar disso, jamais se abateu diante das arbitrariedades, nem fez qualquer concessão aos princípios de que foi expressão e porta-voz.

Mandado sentar praça, como castigo por seu destemor, como punição por sua altivez, teria sido exposto à humilhação da chibata, que então era forma de castigo, aplicado nas corporações militares a não graduados, não fora os privilégios de família, graças aos quais, em vez de soldado raso, como desejava tê-lo o Presidente Costa Pinto, foi incorporado na condição de cadete, situação que perdurou até a posse do novo presidente da Província, José Cândido de Araújo Viana, futuro Marquês de Sapucaí, o qual revogou tal injustiça.

Devolvido à plena liberdade, José Cândido dedicou-se à reorganização de sua vida familiar, cuidando da tia e das três irmãs que dele materialmente dependiam. A seguir, retomou a publicação de seu jornal, que voltou a circular em 23 de janeiro de 1831. Novamente dedicado à causa pública, é de registrar, entre as campanhas em que se empenhou, nesta fase de sua militância, a da subscrição popular que rendeu a aquisição de dois mil volumes para a casa de livros que então se organizava em São Luís, centenária e meritória instituição ainda hoje viva e atuante, e que é a nossa Biblioteca Pública Benedito Leite.

É feliz coincidência que, neste dia, em que me coloco sob o patronato de José Cândido de Moraes e Silva, o Farol, neste dia é do nascimento de Gonçalves Dias e da fundação da Academia Maranhense de Letras, justamente neste salão, que então servia de sede à Biblioteca Pública, órgão da Secretaria de Cultura, que tenho a honra de dirigir, esteja ela, a Biblioteca, iniciando uma grande campanha comunitária pela doação de livros, inspirada no lema Doar é Saber, e ainda: na mesma linha que vai ter às suas origens, fundadas nessa enriquecedora interação com a nossa comunidade.

Acredito já esteja devidamente estabelecida a razão por que José Carlos de Almeida Nunes, o fundador da Cadeira 13, médico por formação e jornalista por vocação, escolheu, entre dezenas de luminares da vida cultural maranhense, José Cândido de Moraes e Silva para seu patrono. Essa escolha, das mais ditosas que poderia fazer, marcou, até agora, o caráter da cadeira que venho ocupar, e da qual se pode afirmar que tem sido uma cadeira cativa de jornalistas.

O sucessor de Almeida Nunes foi Clarindo Santiago, também médico, também jornalista, além de escritor. Forte vocação de ensaísta, tinha o gosto de glorificação das grandes figuras de nossa vida cultural. Uma das expressões culminantes, na linhagem dos médicos humanistas do Maranhão, Clarindo Santiago soube demonstrar que a ciência não é incompatível com as letras, a exemplo do que igualmente demonstraram, com brilhantismo, César Marques, Henriques Leal, Gomes de Sousa, Nina Rodrigues, Aquiles Lisboa, Justo Jansen, Odilon Soares, Luiz Viana, Fernando Viana, Bacelar Portela, Serra de Castro, Salomão Fiquene, Pedro Braga Filho, Pedro Neiva de Santana, Alfredo Luiz Bacelar Viana e João Mohana, para mencionar, tão somente, aqueles que para sempre se ligaram à história e às glórias desta Casa de Cultura.

Devemos a Clarindo Santiago, que foi professor, diretor do Liceu Maranhense, e da Instrução Pública, notáveis trabalhos interpretativos de João Francisco Lisboa e de Gonçalves Dias, um estudo sobre os poetas da chamada Escola Mineira, e também o pioneiro ensaio que chamou a atenção geral para a importância de Joaquim de Sousândrade, o poeta que foi, entre nós, o epicentro de um terremoto clandestino, como dele disse o crítico maranhense Luiz Costa Lima, e que, afinal veio à tona pela força de suas virtualidades de renovação, ousadias formais, insurreições sonoras e antecipações admiráveis, que apontavam para os mais altos momentos da modernidade e das vanguardas.

É oportuno lembrar que os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, responsáveis pela revisão de um injustificável processo de olvido, meritória tarefa que tem contado com a prestante contribuição de Jomar Moraes, reconhecem a importância do trabalho de Clarindo Santiago.

Depois de Clarindo Santiago, foi eleito para a Cadeira 13 o professor, mestre entre os mestres, o pesquisador, ensaísta e, por toda vida, jornalista Antônio Lopes, fundador e presidente da Associação Maranhense de Imprensa, e que, a par de seu competente e marcante magistério no Liceu Maranhense e na antiga Faculdade de Direito do Maranhão, a par dos estudos históricos sobre São Luís, Alcântara e sobre nossa imprensa, a par das admiráveis pesquisas em torno das inscrições lapidares e dos meios de transporte desta capital, dos estudos literários e dessa exemplar obra de pesquisa e interpretação do nosso folclore, que é o livro Presença do romanceiro, deixou uma das mais assinaladas atuações da história de nosso jornalismo. Fundador e redator principal do Diário de São Luís, também colaborou em muitos outros jornais da terra, entre os quais, a Pacotilha e O Imparcial. Deu, assim, com seu estilo elegante, com sua prosa ágil, com sua elevação de idéias e com sua permanente atualização cultural, uma das contribuições mais lúcidas e positivas de quantas, entre nós, merecem memória e reconhecimento.

Fernando Eugênio dos Reis Perdigão, o último titular da Cadeira 13, meu professor na Faculdade de Direito e amigo que sempre me distinguiu com sua simpatia e suas atenções. Advogado, educador, musicista, animador cultural, homem de intensas relações na sociedade, desempenhou todos esses destacados papéis, sem prejuízo do jornalismo, ao qual dedicou o melhor de sua capacidade intelectual.

Uma das figuras mais expressivas da vida social de São Luís, por todo o largo tempo em que aqui viveu, até transferir-se, já aposentado, para o Rio de Janeiro, prestou ao nosso Estado, em cargos públicos, entidades culturais e associações de finalidades altruísticas, uma das folhas de serviços mais diversificadas, vastas e honrosas.

Seria excessivo relacionar, aqui, todos os cargos, postos e funções, que vão de Diretor da Imprensa Oficial a Secretario de Estado, a Conselheiro Técnico do Diretório Regional de Geografia, a Governador Distrital do Rotary Clube, a Diretor da Faculdade de Direito, a Presidente da Seção maranhense da Ordem dos Advogados do Brasil, a membro do Tribunal Regional Eleitoral, a Consultor Jurídico do Estado ou a chefe da Assessoria Jurídica do Banco do Estado do Maranhão.

Na imprensa, desempenhou uma militância ativa e acentuada, embora não fosse um jornalista bastante conhecido do grande público, em função da atividade redacional que exercia. Era editorialista de O Imparcial, onde transmitia, de modo categórico e insofismável, o pensamento dos Diários Associados sobre os assuntos candentes e interessantes do Maranhão, especialmente políticos.

Além de editorialista, o meu antecessor se destacou na imprensa maranhense, por mais de duas décadas, como cronista, usando o pseudônimo de Y. Suas crônicas eram impregnadas de forte conteúdo humanístico, uma das características de sua rica personalidade. A sua paixão pelo jornalismo foi tão marcante que chegou a sindicalizar-se e a filiar-se à Associação Brasileira de Imprensa.

Seja lembrado que, por onde passou, Fernando Perdigão deixou o exemple da competência, do zelo, da dedicação, tudo isso associado a um coração bondoso, cujo espelho permanente era o semblante alegre e o sorriso aberto.

Na área cultural, impôs-se como ativo promotor de eventos artísticos e incentivador de atividades literárias. Sua contribuição ao aprimoramento das artes plásticas, à apresentação de espetáculos cênicos e ao florescimento de movimentos musicais foi sobremodo intensa e marcante. Na Sociedade de Cultura Artística do Maranhão, à qual prestou inestimáveis serviços, deixou registrada sua atuação como membro e dirigente da instituição.

Na juventude, Fernando Perdigão viveu intensamente as inquietações que agitaram o Brasil de seu tempo. Lutou por reformas, clamou por mudanças, protestou contra as injustiças, numa época em que a sua geração, engajada na Aliança Liberal, tentava destronar do poder uma oligarquia que dominava o país desde a proclamação da República. Quando da deflagração da Revolução de Trinta, integrou-se a esse movimento, que tinha como um dos líderes, no Maranhão, o seu irmão, José Maria dos Reis Perdigão, que chegou a participar da Junta Revolucionária.

O escritor Josué Montello, no livro A Coroa de Areia, romanceou os episódios revolucionários transcorridos no Maranhão, entre 1922 e 1937. Valeu-se da extraordinária colaboração de Fernando Perdigão, que, com o vasto conhecimento sobre o assunto, relatou as peripécias que aqui aconteceram nos primeiros anos da década de 30, algumas das quais, ele, chegou a ser protagonista ou foi testemunha ocular ou auditiva.

Depois, esses sonhos juvenis confluíram para o grande feito da razão construtiva, da energia domada e da capacidade realizadora postas a serviço da transformação que se processa com equilíbrio, acima, por conseguinte, dos gestos impensados e das atitudes meramente passionais.

Essa ponderação que somente os anos conferem, soube usá-la Fernando Perdigão, sendo o conciliador em momentos de crise e servindo de bom conselheiro em situações de ansiedade e insegurança.

Em plena mocidade, em 1944, com apenas 28 anos, foi aprovado no concurso para professor da Faculdade de Direito da Fundação Paulo Ramos, instituição que teve como um de seus fundadores o pai, Domingos Perdigão. Em 1951, por decreto do Presidente Getúlio Vargas, viu-se nomeado professor catedrático de Economia Política, da Faculdade de Direito de São Luís, da qual veio a ser diretor de 1967 a 1971, num período de grande turbulência política, mas mercê de seus equilíbrio e sensatez, não cometeu contra os corpos docente, discente e administrativo, injustiças ou arbitrariedades.

Foi a Faculdade de Direito que serviu de palco para o meu primeiro encontro com Fernando Perdigão. Corria o ano de 1962, quando tomei a decisão, após hesitações vencidas, de fazer o curso de Ciências Jurídicas e Sociais, cujo vestibular compreendia, então, provas escritas e orais.

À força de sacrifícios que me privaram de um carnaval, num tempo em que ainda pontificavam os bailes de máscaras, os lança-perfumes e as batalhas de confetes e serpentinas, preparei-me para a chamada guerra do vestibular, que se chegasse a ultrapassá-la estaria habilitado a ingressar no ensino de nível superior.

Estava certo de que tinha condições de ser bem sucedido nos exames, mas a banca da prova oral, formada pelos professores Pedro Neiva de Santana e Fernando Perdigão era de meter medo a qualquer vestibulando. Ambos desfrutavam de bom conceito intelectual na sociedade e tinham o reconhecimento geral quanto ao rigor que exigiam dos candidatos a futuros advogados.

Enquanto Pedro Neiva era encarregado de testar o conhecimento dos candidatos quanto à literatura brasileira e portuguesa, Fernando Perdigão procurava saber sobre a capacidade dos vestibulandos com respeito à gramática, no que concerne à sintaxe e ao léxico.

No dia da prova oral, cheguei nervoso na Rua do Sol, onde se instalava a Faculdade de Direito. O meu temor não era tanto o professor Pedro Neiva, pois, pelos conhecimentos que tinha de literatura brasileira e portuguesa, sabia que me sairia razoavelmente bem, como, de fato, aconteceu. O problema era enfrentar o professor Fernando Perdigão, não só pela sua fama de durão e gozador, mas por não estar bem preparado para responder as questões que dele viriam sobre assuntos gramaticais. Como não poderia fugir nem da prova, nem do sabatinador, fui para a luta, e, ao cabo da mesma, não me senti derrotado. Ao contrário, acho que, pelas respostas dadas às perguntas a mim formuladas, consegui contentá-lo e ainda tive o prazer de travar uma boa conversa com ele, conversa essa que fez nascer entre nós uma fraternal amizade.

Aprovado no vestibular da Faculdade de Direito, logo no primeiro ano do curso, fui encontrá-lo como professor de Ciência Política. Se já dedicava a ele amizade e admiração, estas mais ainda se consolidaram no dia a dia de nossa convivência, que se estendeu ao longo do tempo.

Mesmo depois que Fernando Perdigão decidiu deixar São Luís e mudar-se com a família para o Rio de Janeiro, nosso relacionamento não foi cortado nem sofreu qualquer alteração. Sempre que ele vinha a São Luís, para rever a cidade que não esquecia, e os amigos que aqui deixou, eu procurava ir ao seu encontro para matar as saudades, oportunidade em que ele não deixava de perguntar sobre os fatos da cidade, principalmente os que giravam em torno da política. E, valendo-se da memória privilegiada, não olvidava dos ex-alunos da Faculdade de Direito, e, nominalmente, queria saber onde estavam, o que faziam e se, possível, revê-los.

A última vez que conversei com Fernando Perdigão foi em de 1981, no Rio de Janeiro, por ocasião da posse do escritor José Sarney, na Academia Brasileira de Letras. Depois da solenidade, nos abraçamos e, para não perder o costume, passamos a em revista, ainda que brevemente, fatos, atos e acontecimentos de São Luís, os quais mereciam comentários jocosos de sua invejável verve.

De Fernando Perdigão, guardo até hoje, com muito carinho e afeto, a figura humana, extraordinária e ímpar, o mestre excepcional, o amigo querido e as boas lembranças do nosso convívio fraterno e acolhedor.

Para coroamento da amizade e admiração que a ele devotava, o destino me reservou uma grata e feliz alegria: a de ser eleito para substituí-lo na Academia Maranhense de Letras, instituição à qual reservava apreço e se empenhava para honrá-la e enobrecê-la. Como jamais imaginei fazer parte da Casa de Antônio Lobo e menos ainda de ocupar o lugar que pertenceu a um cidadão ilustre e digno, podeis avaliar, caros confrades, a emoção que, nesta hora, domina a minha alma e meu corpo, que, juntos e inseparáveis, farão de tudo para não deslustrar a Cadeira nº 13, que Fernando Perdigão, soube, como poucos, engrandecê-la e torná-la á altura das tradições culturais e históricas do Maranhão.

Que fique, pois, em nossa lembrança o Fernando Perdigão alegre, sorridente, espirituoso, vivaz, inteligente, conciliador, o homem cordial e o espírito brilhante, já que foram estes, com certeza, seus maiores e mais evidentes tributos.

Senhor Presidente, Senhores Acadêmicos:

Minha condição de jornalista e meu fascínio pelas atividades de repórter deram-me, durante longos anos de convivência com muitos de vós, certo conhecimento do que é a Academia em sua intimidade. E devo dizer-vos, falando francamente, que a curiosidade do repórter não tinha, a aguçá-la, o sonho de tornar-me um, entre vós.

Sempre vi a Academia como uma das instituições mais importantes da nossa terra, e sempre tive na mais alta consideração o seu papel de guardiã das tradições que são o patrimônio maior do Maranhão.

Por assim entender, mantenho com a Academia, desde há muito tempo, permanente aproximação, embora, nem por isso, a tivesse como um alvo de minhas conquistas. Não formo entre aqueles que se chegam e se insinuam por interesse, ou se distanciam por indiferença ou rejeição.

Por levar com seriedade a Academia, sempre achei que ela tem a grandeza dos que a fizeram e fazem, mas que não pertence apenas a seus quarenta membros. Vejo a Academia como um símbolo e patrimônio de todo o Maranhão, entendo a Academia como sendo umas das altas expressões de nosso povo, que a legítima com seu apreço e lhe dá sentido com seu relacionamento.

Eis a razão por que, embora não sendo nem pretendendo ser da Academia, sempre julguei que poderia aproximar-me dela, e mais que isso: que tinha o direito de torcer por candidatos e de até me envolver, de certo modo, em suas eleições.

Jomar Moraes, numa das crônicas recolhidas ao livro Cinza das quartas-feiras, evoca a minha participação como seu cabo eleitoral, numa das eleições acadêmicas mais apaixonantes e movimentadas dos últimos vinte anos. Não lhe dei meu voto, pois não era eleitor desse pleito, e até desconheço se ele, por minha causa, perdeu ou ganhou eleitores. O certo é que se elegeu, e hoje me dá a grande alegria de presidir a cerimônia de minha posse. Esse é um dos bons caprichos do destino, pois garanto que nada disso foi entre nós combinado.

Estou bem certo das responsabilidades que hoje assumo.

Este é um dos momentos mais altos da minha vida.

Jamais sonhei com a Academia, mas agora a tenho concretamente, para viver o sonho de que me acho possuído.

Que esse sonho nunca termine, para que, pela força de seu encantamento, possa eu, em termos concretos, somar, contribuir, ajudar e servir, fiel ao ideal daqueles doze pioneiros que apóstolos do Maranhão intelectual, há 82 anos, nesta data e neste salão, fundaram a Academia.

Senhor Governador do Estado, Senhor Presidente da Academia, Senhores Acadêmicos, Ilustres Autoridades, Minhas Senhoras, Meus Senhores:

Em agosto de 1969, numa festa igual ou mais fulgurante do que esta, o inesquecível professor Luiz Rego, na qualidade de presidente da Academia Maranhense de Letras, promoveu uma solenidade para comemorar os 61 anos de sua fundação e dar posse ao intelectual Jomar Moraes, que hoje de maneira inequívoca e brilhante a dirige.

Naquela oportunidade, constava da sessão, cujo orador foi o meu antecessor, uma programação dedicada aos intelectuais ainda não pertencentes aos quadros da AML, a saber: Arlete Nogueira da Cruz, Alfredo Luiz Viana, Américo Azevedo Neto, Antônio Rabut, Acrísio Figueiredo, Antônio Monteiro, Antônio Carlos Silva, Bandeira Tribuzzi, Benedito Buzar, Batista Lopes, Celso Anchieta, Carlos Cardoso, Eugênio Freitas, Edomir Oliveira, Edison Vidigal, Fernando Moreira, Ivan Sarney, João Cordeiro, José Moraes Filho, José Chagas, Lucinda Santos, Marconi Caldas, Maria da Conceição Oliveira, Murilo Ferreira, Manoel Rolim, Nauro Machado, Nicanor Azevedo, Paulo Moraes, Reginaldo Teles, Sá Vale Filho,Sebastião Jorge, Ubiratan Teixeira e Antonio Neves da Costa.

Após vinte e um anos daquela noite de brilho e encantamento cultural, quero, aqui e agora, transmitir uma mensagem ao querido e saudoso professor Luiz Rego, que se encontra, mercê do bem que praticou nesta terra, no Reino dos Justos e dos Bem Aventurados: meu caro mestre, neste momento, para meu orgulho, felicidade e satisfação, não sou mais um intelectual não pertencente aos quadros da Academia Maranhense de Letras. Graças à sua profecia e por vontade e determinação dos confrades, sou e estou membro da Casa de Antônio Lobo.

Discurso de Recepção

Eu não sei, Senhor Benedito Buzar, o que vos levou a sugerir à Presidência da Academia que me designasse para fazer soar o clarim das boas-vindas com que todos festejamos vosso ingresso nesta casa.

Mas graças à força com que são impressas, em nossa lembrança, fases marcantes da vida, lancei-me a um mergulho no tempo, que me permitiu rememorar cerca de 25 anos de boas e más coincidências envolvendo nossas vidas e lutas, ambas direcionadas para as alturas onde nobres ideais e generosas aspirações de mocidade conheceram os quadros realistas de muitas decepções e desenganos, mas também tiveram, nesses embates do sonho com a realidade, a virtude de ensinar que, na construção do concreto entra, necessariamente o contributo do onírico. E,então, me dei conta de que a comunhão de ideias e o percurso de roteiros paralelos, a lavra nos mesmos férteis campos da história, o comum empenho na compreensão do presente a partir das lições do passado, foram a razão determinante do honroso convite.

Recordo, por exemplo, que, sonhando com democracia num período em que todas as expressões de liberdade foram gravemente afetadas por mais um surto de neofacismo, opusemos a resistência que nos era possível contra o garroteamento dos direitos individuais e coletivos, e, por isso mesmo, duma assentados só, demos com os costados nas masmorras dos que se autodenominavam salvadores da pátria amada idolatrada.

Essa, felizmente, é hoje uma quadra pertencente ao capítulo dos dias nefastos de nossa história política, embora ainda todos nos ressintamos das seqüelas e dos efeitos colaterais que o mal extirpado produziu, já que o correto exercício de liberdade requer bom tempo de readaptação por parte do povo que a havia perdido.

Irmanados na luta oposicionista dos anos sessenta, abarcamos, com as forças de nossos verdes anos, as tribunas da imprensa e da Assembléia, para a detonação dos rojões de nossas palavras e pensamentos contra os que, sobraçando o poder com o ânimo e o vigor do ditador latino dirigia este Estado sob o regime de suserania persa ou de tirania grega, onde a pessoa do governante tinha a ver com o soba, e a figura do Estado mais se ajustava à cubata africana.

Fato risível, pela capitis diminutio de que se revestiu, foi o requerimento por vós apresentado, em 9 de março de 1963, ao Plenário da Assembléia Legislativa, pedindo a aprovação de um voto de louvor pelo transcurso do aniversário do orador que vos fala, matéria de corrente aprovação para bispos, marajás, cobras e lagartos, mas de irremovíveis proibições e a pessoa do homenageado fosse, como foi, a figura de um jornalista da oposição.

Lida a matéria pelo deputado Frederico Leda, presidente da Casa, a liderança do governo se embandeirou em arco. Pediu-se a suspensão da sessão, houve telefonema para o Palácio dos Leões, e de lá tonitrou a ordem seca, histérica, transitada em julgado:

  • Votem contra!

E, pela primeira vez, desde o ano de 1835, quando se instalou, a Assembléia negou um voto de louvor ao “jornalistazinho que escrevinhava horrores num jornaleco que se editava na zona do meretrício”, segundo foi o bizarro episódio registrado nos anais do Parlamento da Rua do Egito.

Desiludidos, por isso que sem asas e sem flauta, na expressão do poeta, buscamos pão e refúgio nas redações da Cidade, e de lá a estes dias vimos dando conta do nosso recado e destino no jornalismo político, aplainado, agora, pelo peso dos anos e amenizado por um processo rigoroso de repensada visão crítica.

Como que empurrados por uma mão invisível e poderosa, na trilha das coincidências que nortearam nossas ações e vidas, elegemos nossa atividade intelectual específica a pesquisa histórica e creio que já oferecemos à nossa terra algo de útil e duradouro, nos trabalhos que até hoje publicamos.

Não sei, Senhor Benedito Buzar, em que classe os entendidos poderão nos identificar como artesãos da pesquisa histórica. Os nossos amigos nos brindarão com todos os títulos nobiliárquicos, e os que nos apreciam dirão, sem embargo, que somos meros provisionados, espécies de rábulas da historiografia maranhense. É a vida.

A verdade, porém, é que vamos, com o nosso esforço mais sustentado pela pertinácia do que pelo apoio que tanto falta ao produtor cultural maranhense, mais pela convicção – e até chegaria a dizer: pela compenetração pessoal – de que temos uma contribuição a oferecer, ajudando a construir e consolidar essa imensa e interminável obra que é a história do Maranhão.

O vosso ingresso nesta Casa tem a marca e as raízes da atividade intelectual voltada para a pesquisa histórica, especificamente no campo da Memória, de que vos tornastes, nos últimos anos, um dos mais abalizados e dedicados especialistas.

Nas vossas produções, seguistes as linhas-mestras do pensamento de José Honório Rodrigues, quando professorou em seu lúcido magistério: “na História, como em qualquer ciência, os progressos referentes ao esclarecimento conceitual, teórico e metódico são tão necessários quanto os relativos ao conhecimento dos mesmos fatos”.

Desse mestre de grandes láureas, recolhi estas palavras de bom aviso:

“Deus não é dos mortos, mas dos vivos, porque, para Ele, todos são vivos. A História também não é dos mortos, mas dos vivos, pois ela é a realidade presente, obrigatória para a consciência, frutífera para a experiência. A vida e a realidade são história, gerando passado e futuro. Assim todo movimento da consciência, toda a pulsação vital do espírito é história, no duplo sentido de res gestae e historia res gestae, segundo a lição de Croce”.

Quando publicastes o livro A Greve de 51, não tivestes o propósito de esgotar o assunto, considerando que ele, por sua complexidade, continua a espera de novas abordagens, sendo de esperar que não faltem interesse e espírito de análise, equilíbrio de julgamento e perspicácia interpretativa para desdobrá-lo nas muitas monografias que certamente comporta e reclama.

Vosso trabalho, porém, é pioneiro, e corresponde ao gesto de quem abriu o grande pano da cena que chamou as atenções gerais sobre a cidade e São Luís.

Pode-se afirmar que a prolongada e profunda conturbação popular que passou a história com o nome de Greve é um fato muito importante na vida de São Luís, mas não insólito. Muito ao contrário, significa um ponto de incidência, um motivo referencial com remissão para acontecimento mais recente – a chamada Greve da Meia-Passagem –, mais com numerosos antecedentes que deitam suas raízes através dos séculos, indo ter aos tempos coloniais, quando aqui se protestou severamente contra a opressão e com tanta veemência se clamou por liberdade, que até vidas foram imoladas.

Vosso livro A Greve de 51 é, portanto, um ponto de partida que certamente haverá de provocar frutuosos desdobramentos, levando outros estudiosos aos detalhes do painel que oferecestes, ao panorama que a todos nos possibilitastes descortinar. Trata-se, portanto, de um trabalho seminal, inteligente e provocador.

E também representa uma postura nova diante das estreitezas de entendimento daqueles que, desconhecendo a amplitude potencial de determinados assuntos, consideram-se proprietários exclusivos de certos temas, sobre os quais não admitem o enriquecimento das novas contribuições.

À primeira vista pode parecer desnecessariamente longo o título de outro livro de vossa lavra, Politiqueiros, politicalha, politiquice, politicagem, política do Maranhão, lançado ano passado, em noite de autógrafos, bem mais concorrida do que muitos comícios que vamos por aí.

O título, como todo rótulo perfeitamente adequado ao produto que anuncia, tinha que ser esse mesmo, para sintetizar as muitas facetas do livro a que corresponde.

Como todo trabalho capaz de ser arrolado na categoria chamada pela crítica de obra aberta, esse livro comporta e até mesmo sugere as mais diversas leituras. Desde aquela que, com evidente miopia, poderá concluir que todo o seu conteúdo não passa de episódios curiosos, de flagrantes bem humorados que darão motivos a gostosas gargalhadas, até a que forneça preciosos elementos para uma história humana dos nossos governantes e parlamentares. Entre uma e outra forma de recepção da mensagem que o livro oferece, numerosas, quase inesgotáveis possibilidades de conclusões.

Vejo esse trabalho como um testemunho evidente de vossa capacidade de observação, como um retrato de vossa sensibilidade e perspicácia. Eis um livro que, não sendo de história, presta-se perfeitamente, para o trabalho do historiador, na medida em que lhe fornece material que é difícil e, em certos casos, impossível de recolher em outras fontes.

Passaram-se já as circunstâncias em que muita coisa ali documentada aconteceu, e já não são poucos os personagens que, vivos e atuantes nos quadros e retratos de vosso livro, estão, hoje, definitivamente silenciados pela morte.

Prestastes, pois, com o livro sobre políticos e politiqueiros de nossa terra, um alto serviço à memória maranhense. Pode-se achar que se trata, apenas, de uma contribuição para o nosso folclore político. É um entendimento parcialmente correto. Mas que peca pelo grave defeito de ser uma visão parcial. Há muito mais a recolher desse repositório. E, sendo inteligente a garimpagem, por certo facilmente será encontrado o filão, cuja matéria-prima, trabalhada convenientemente, servirá para tornar nossa história menos árida e mais humana, mais viva e palpitante.

A Casa que hoje vos acolhe, Senhor Benedito Buzar, orgulha-se de ter, nos quadros dos seus patronos, historiadores do porte de Cândido Mendes, Henrique Leal, João Lisboa, Vieira da Silva, César Marques, Tasso Fragoso e Dunshee de Abranches. Na galeria dos fundadores, emprestaram seu talento à História os imortais Barbosa de Godóis, Fran Paxeco, Ribeiro do Amaral, Rubem Almeida e Joaquim Luz. E nos quadros dos sócios efetivos, entre vivos e os que de nós se despediram, alinham-se os vultos notáveis de Jerônimo de Viveiros, Mário Meireles, Costa Fernandes, Jomar Moraes, Antonio Lopes, Domingos Vieira Filho, Astolfo Serra, Virgílio Domingues, Antonio de Oliveira, Carvalho Guimarães e Eloy Coelho Neto, acadêmicos aqui citados como lembrança e homenagem do orador no dia maior das festas da Academia, o seu aniversário de fundação, no dia 10 de agosto, comemorativo, também, do aniversário natalício do maior dos nossos poetas maiores – Gonçalves Dias, patrono da Academia e da poesia nacional.

Esta Casa de historiadores, romancistas e poetas; esta Casa que, atenta à amplitude dos valores que aqui devem estar representados, igualmente é dos expoentes de todos os campos do saber e dos criadores de belezas em cores e formas com a dimensão do artista plástico Antonio Almeida, é, também, uma casa de jornalistas, a exemplo de todos os homens de imprensa que fazem a história da cadeira 13.

Assim, Senhor Benedito Buzar, vós, que aliais a paixão pela história ao gosto e à vocação pelo jornalismo, estais duplamente em casa. E aqui chegais trazendo os frutos do vosso labor nos campos da pesquisa histórica, parte dos quais se encontra, ainda, sob a forma de dezenas de trabalhos esparsos em jornais e revistas.

Este é o momento para vos sugerir que o volume de páginas soltas, que dorme em diversos órgãos de imprensa, logo possa encontrar o necessário caminho da unidade e de perpetuidade que somente o livro assegura, livro com o qual prestareis, ao meritório mister da recuperação da memória maranhense, mais um serviço de grande merecimento.

Sei que a Academia repete, comigo, a afirmação de que esta solenidade em que vos recebemos, fazendo-vos um de nós, é motivo de imensa alegria para todos.

Tende o geral aplauso dos vivos aqui presentes, e estou certo de que vos bendizem e também vos recebem todos aqueles que, em espírito e verdade, vivem com a Academia, ao mesmo tempo em que lhe dão vida. São eles nossos patronos e antecessores, entre os quais desejo nominar Antônio Lobo, Armando Vieira da Silva, Alfredo de Assis Castro, Astolfo Marques, Barbosa de Godois, Corrêa de Araújo, Clodoaldo de Freitas, Domingos Barbosa, Fran Paxeco, Godofredo Viana, Inácio Xavier de Carvalho e Ribeiro do Amaral.

Foram eles que, numa noite como esta fundaram a Academia Maranhense de Letras, certos de que teriam, pelo tempo em fora continuadores desta obra.

Sois, a partir de agora, um companheiro nosso e um continuador da obra que aqui nos reúne e irmana.

Sede, portanto, bem vindo, Senhor Benedito Buzar.

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